Arquivo para a categoria "Mídia"




Thursday, July 10, 2008

A Internet rastreada

daniel christino, 2:54 pm
Filed under: este blog, internet
Tags: , ,

Foi aprovada ontem no Senado Federal proposta substitutiva ao projeto de Lei da Câmara que trata dos crimes praticados na Internet. É o famigerado texto do senador Eduardo Azeredo. A blogosfera entrou em alerta. Os argumentos levantados em diversos sites podem ser resumidos a dois principais, ilustrados aqui pelo Pedro Dória e pelo Carlos Castilho. Segundo o Doria,

A lei cria o provedor que delata. Se uma gravadora, por exemplo, rastreia que um usuário ligado ao Speedy em São Paulo ou ao Vírtua em Maceió está usando a rede Bit Torrent, de troca de arquivos, ela pode ir à Justiça pedir a identidade do sujeito. Telefónica (do Speedy) ou Net (do Vírtua) são obrigados a dizer quem foi. Não importa que, muitas vezes, os arquivos trocados sejam legais. O fato é que todo provedor de acesso se verá obrigado a manter por três anos uma listagem de quem fez o quê e que lugares visitou na web. É como se os Correios mantivessem uma lista de todos os usuários de seu serviço e que indicasse com quem cada um se correspondeu neste período de anos. É coisa de Estado policial e uma franca violação da liberdade.

Outro problema da lei é a proibição de que se ‘obtenha dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização do legítimo titular, quando exigida.’ Vai uma pena de 2 a 4 anos, mais multa. O objetivo, evidentemente, é proibir pirataria. Mas imagine-se a loucura de ter a necessidade de provar que está autorizado a carregar qualquer informação colhida na rede.

A rede é, essencialmente, uma máquina de cópias. Carregou esta página do Weblog? Há uma cópia dela em seu HD. Um CD comprado só permite seu uso em CD players. A não ser que Herbert Viana ou outro dos Paralams o autorize expressamente, nada de passar para o iPod. O Google está digitalizando milhares de livros fora de catálogo. Muitos deles têm o detentor do copyright desconhecido. Se o dono aparecer, eles tiram da lista. Em caso contrário, fica público. No Brasil, se o substituto do senador Azeredo for aprovado, esta que será a maior biblioteca pública do mundo será ilegal. Esse artigo é tão mal escrito que, no fim das contas proíbe o uso da Internet.

O Castilho acrescenta o pertinente argumento de que é uma lei antiga para uma coisa nova. O descompasso pode torná-la obsoleta.

Para criar um conjunto de condutas e valores capazes de coibir a delinqüência virtual (tipo pedofilia, roubo, difamação, chantagem, terrorismo etc) é necessário primeiro procurar entender a natureza do processo no qual estão inseridas a internet e a Web. Impor um modelo repressor idêntico ao usado para canais de comunicação como radio, televisão e cinema, é uma absurda perda de tempo e de energias, porque até os neófitos da rede sabem que será um fracasso.

A internet não é apenas um conjunto de computadores interligados entre si. Ela já é uma expressão do novo sistema de produção econômica e cultural gerado a partir de inovações tecnológicas como a computação e a digitalização, que por sua vez são o resultado de pressões dos agentes econômicos por processos mais rápidos e automatizdos, capazes de atender à demanda de uma população em crescimento acelerado.

O mundo moderno tornou-se complexo demais para que continuemos a usar sistemas e valores surgidos junto com a da revolução industrial. No contexto atual, a troca e conseqüente recombinação de informações, sejam elas em texto, áudio ou imagens precisa ser a mais ampla possível para que os conhecimentos sejam produzidos no ritmo exigido pela economia e pela sociedade contemporânea.

Não se trata, portanto, de ser contra a tentativa de normatizar o uso da Internet e previnir crimes como pedofilia. O problema é que esta propsta não consegue fazer o que promete e ainda atrapalha o que está funcionando. Quem quiser pode assinar a petição aqui.

Tuesday, July 8, 2008

Bem-vindo à Era do Petabyte

daniel christino, 5:22 pm
Filed under: Ciência, Imprensa, software, tecnologia
Tags: , ,

Um modo acurado de entender teorias científicas é compará-las a modelos. Ou melhor, modelos são simulações de funcionamento dos princípios de uma teoria. São construídos a partir de dados. O exemplo mais comum vem da metereologia, mas também encontramos modelagem na física e na biologia. Com os modelos podemos entender de que modo os dados empíricos se associam para formar uma explicação razoavelmente coerente dos fenômenos estudados. É uma espécie de semântica dos dados. Com informações sobre o comportamento de massas de ar, áreas de pressão, velocidade dos ventos, temperatura e imagens de satélite alimentando um determinado modelo, podemos prever, com boa dose de acerto, o comportamento do clima. Exemplos podem ser encontrados aqui.

O interessante sobre os modelos é que muitos deles se baseiam, na verdade, na insuficiência de dados e não em sua abundância. O modelo utiliza hipóteses derivadas da teoria para preencher a lacuna deixada pela falta de informação. É por isso que a Física formula teorias consistentes com até 12 dimensões sem ter conseguido provar, experimentalmente, mais do que quatro. Acontece o mesmo na Economia, principalmente na Teoria dos Jogos de Estratégia. Aliás, incidentalmente, foi a procura por um modelo econométrico que inspirou a criação do Instituto Santa Fé, cuja principal conquista foi a controversa Teoria do Caos (sobre isso, o livro mais legal que já li é esse).

Nem mesmo as ciência humanas - notadamente a sociologia e a economia - escaparam da hipótese de se poder modelar o comportamento social humano. Na Sociologia, a Teoria dos Sistemas (cf. Niklas Luhmann e Talcott Parsons) gerou modelos computacionais sobre interação social e comportamento de consumo. Se quiser aprofundar basta checar a literatura sobre sistemas complexos adaptativos.

Mas os pressupostos metodológicos e epistemológicos por detrás da idéia de modelagem podem ter sido ultrapassados pela tecnologia. É o que argumenta a reportagem da Wired “O fim da teoria“. Segundo Chris Anderson, editor de ciência da revista,

Sixty years ago, digital computers made information readable. Twenty years ago, the Internet made it reachable. Ten years ago, the first search engine crawlers made it a single database. Now Google and like-minded companies are sifting through the most measured age in history, treating this massive corpus as a laboratory of the human condition. They are the children of the Petabyte Age.

O raciocínio de Anderson tem a ver com a equação quantidade x qualidade. Segundo ele a tecnologia nos dá a capacidade de interagir com quantidades de informação nunca antes disponíveis aos indivíduos sem a mediação de um modelo teórico que conferisse algum sentido a estes dados. No lugar das teorias, algoritmos de busca. No lugar da causalidade, correlação. O que sustenta este raciocínio é a percepção (ele não formula um tratado sobre o assunto) de que não é mais possível circunscrever toda informação disponível a uma totalidade de sentido. Por mais irônico que possa parecer, quando finalmente temos acesso a quantidades impressionantes de dados para comprovar a  plausibilidade de determinados modelos, eles não são mais necessários.

At the petabyte scale, information is not a matter of simple three- and four-dimensional taxonomy and order but of dimensionally agnostic statistics. It calls for an entirely different approach, one that requires us to lose the tether of data as something that can be visualized in its totality. It forces us to view data mathematically first and establish a context for it later. For instance, Google conquered the advertising world with nothing more than applied mathematics. It didn’t pretend to know anything about the culture and conventions of advertising — it just assumed that better data, with better analytical tools, would win the day. And Google was right.

Este raciocínio tem um pressuposto, entretanto. A idéia de que teorias científicas são constructos anteriores à experimentação e sua “verdade” deve ser comprovada ex post facto. Em outras palavras, Anderson é um popperiano legítimo e sua interpretação da lógica da ciência pode ser entendida como um racionalismo crítico. Para falar com Bachelard, o vetor epistemológico vai da teoria em direção à experiência. É por isso que ele vê uma espécie de revolução no modelo científico ao entender que a tecnologia inverte o vetor bachelardiano. Agora, é a experiência que vem primeiro.

There is now a better way. Petabytes allow us to say: “Correlation is enough.” We can stop looking for models. We can analyze the data without hypotheses about what it might show. We can throw the numbers into the biggest computing clusters the world has ever seen and let statistical algorithms find patterns where science cannot.

Como evidência Anderson cita um cluster formado pela IBM, Google e mais seis universidades americanas prestes a colocar um gigantesco conjunto de precessadores de informações para funcionar. Curiosamente, o projeto inclui também programs de simulação (modelos!!) do cérebro e do sistema nervoso.

The cluster will consist of 1,600 processors, several terabytes of memory, and hundreds of terabytes of storage, along with the software, including IBM’s Tivoli and open source versions of Google File System and MapReduce. Early CluE projects will include simulations of the brain and the nervous system and other biological research that lies somewhere between wetware and software.

Learning to use a “computer” of this scale may be challenging. But the opportunity is great: The new availability of huge amounts of data, along with the statistical tools to crunch these numbers, offers a whole new way of understanding the world. Correlation supersedes causation, and science can advance even without coherent models, unified theories, or really any mechanistic explanation at all.

Eu, do meu lado, não consigo ver no horizonte da tecnologia uma mudança tão radical a ponto de redimensionar a relação teoria x experiência na ciência. Sem dúvida Anderson tem a seu favor a evidência histórica de que os impactos de uma nova tecnologia podem, realmente, alterar o modo como a ciência vê a si mesma (basta lembrar do telescópio de Galileu).

Por outro lado, as revoluções científicas sempre acontecem antes na especulação criativa dos cientistas do que na análise fria dos dados. Foi o que aconteceu com a teoria de evolução, por exemplo. Mesmo que, nos termos de Anderson, a correlação supere a causalidade, a ciência percorreu um caminho muito tortuoso e difícil até admitir sua natureza histórica, sua dimensão verdadeiramente humana (toda ciência é humana, neste sentido!) para agora dar meia-volta inspirada em algo evidente desde os gregos: a realidade é imensamente complexa e nossa capacidade limitada. Uma posição meramente instrumentalista, como a que Anderson defende, implica abandonar o problema do sentido, deixando-o de lado como se fosse um brinquedo quebrado. É preciso recuperar o pasmo essencial. Teorias serão sempre necessárias.

Friday, July 4, 2008

Sobre as Farc

daniel christino, 1:30 am
Filed under: Política, internet
Tags: 

Um texto muito bom sobre as Farc no blog do Pedro Dória. Vale a pena.

Wednesday, July 2, 2008

América Latrina

Thursday, June 26, 2008

Clássicos em papel higiênico

yuri vieira, 12:12 am
Filed under: Cotidiano, Imprensa, Podcast e videos, literatura
Tags: , , ,

Eca(sorrindo): “E não é o final dos tempos? O que é o Apocalipse? Não é o Livro da Revelação? As coisas hoje estão se revelando para quem quiser ver — revelando-se em sua inconsistência e mediocridade. Nada mais é feito para durar além do tempo que dura um modismo. Você vê por exemplo essa idéia de editar clássicos da literatura em papéis higiênicos… Nada mais significativo.”

Gazeta Uenebense
: “Mas se não fosse essa idéia eu jamais teria lido Joyce e Maupassant.”

Austris: “E também jamais teria cagado na obra de ambos.”

As declarações acima foram emitidas por Roberto Eca e Mauro Austris — personagens do meu conto “Paralíticos e Desintegrados” — em 1997, ano em que foi escrita A Tragicomédia Acadêmica. Tal como outras previsões malucas encontradas nos contos do mesmo livro, segue-se mais esta, anunciada como grande novidade pelo próprio Jornal Nacional. (Veja no G1.) Se eu cobrasse royalties por invenções desse tipo, estaria bem de vida. (Sim, William Bonner, eu já tinha inventado isso 11 anos atrás.)

Friday, June 20, 2008

Bolsa: melhor do que pensava

yuri vieira, 7:30 pm
Filed under: Cotidiano, Economia, sites
Tags: , ,

Eu comecei no InvestidorVirtual.com dia 17 de Maio. De lá pra cá, já tive um prejuízo de R$ 4.518,00, ou seja, de 4,5%. Entrei com R$ 100.000,00. Já estava achando que não sou um bom surfista dos gráficos da bolsa de valores, mas hoje li esta notícia:

* Perda da Bolsa em junho é a maior desde abril de 2004 iG Ultimo Segundo - 20/06/2008, 19:01
Se junho encerrasse hoje, as perdas acumuladas pela Bolsa de Valores de São Paulo no mês seriam as maiores desde abril de 2004. O Ibovespa, principal índice da Bolsa paulista, registra queda de 10,99% em junho até o pregão desta sexta-feira (que foi encerrado com declínio de 2,97%).

Enfim, entrei no mercado justamente quando se iniciaria o mês de maior baixa desde Abril de 2004. E detalhe: minha perda não foi de 10,99%, mas apenas de 4,5%, o que significa que me agarrei com unhas e dentes e não fui pior que a IBOVESPA como um todo.

Um dia, eu chego lá. :)

Morre o Visconde de Sabugosa

daniel christino, 1:20 pm
Filed under: Arte, Cotidiano, Mídia, memória
Tags: 

Se você tem mais de 35 anos provavelmente assistiu, lá pelo meio da década de 80, ao Sítio do Pica-Pau Amarelo, série de TV inspirada na obra de Monteiro Lobato. Se você, além disso, era um garoto meio nerd apaixonado por tecnologia, ciência e filosofia, seu personagem preferido deve ter sido, certamente, o Visconde de Sabugosa (além, é claro, do Pedrinho, dotado de uma inteligência pragmática realmente genial).

Mas o Visconde era uma enciclopédia de erudição. Inspirado na elite científica britânica (Royal Academy) formava o par oposto com a boneca Emília, fruto da intuição pura. Eu adorava o Visconde pelo seu porte nobre, um tanto didático e professoral (para um moleque de 5ª série, perfeito) e pelo modo como acessava os problemas de modo analítico e racional. Visconde de Sabugosa foi o primeiro intelectual que conheci.

Crianças geralmente confundem ator e personagem e comigo não foi diferente. Quando, mais tarde, decidiram mudar o ator perdi o entusiasmo com a série. Estava crescendo, também. Minha memória afetiva, entretanto, plasmou a figura do personagem em André Valli. Para mim não há outro Visconde, apenas aquele feito pelo André. O original.

Diz a matéria do G1 que ele foi diagnosticado com câncer há apenas um mês. Como teria reagido Visconde? Teria procurado informações na enciclopédia, analisado a situação e partido em mais uma aventura, agora em busca de uma salvação? Como reagiu o ator? Não sei. Deve ter sido difícil. Quem dera pudéssemos apanhar uma outra espiga de milho e devolver-lhe, num passe de mágica deliciosamente anticientífico, a vida. Descance em paz, Visconde/André. As sementes que Lobato lhe colocou na boca - e para as quais você foi forma e adubo - ainda estão a germinar por aqui. Num vasto milharal…

Saturday, April 26, 2008

A ciência avança

daniel christino, 5:34 pm
Filed under: Ciência, Humor, Mídia, Religião
Tags: 

Esta notícia vem direto do blog do Pedro Doria. Ao que parece, alguns cientistas gays conseguiram isolar o gene da cristandade (positivamente associado ao sentimento religioso universal). As repercussões podem ser devastadores para os cristãos de todo o mundo. Confiram.

Thursday, April 24, 2008

Use as drogas certas, bicho.

daniel christino, 10:23 am
Filed under: Ciência, Humor, extraordinárias, internet
Tags: 

Quer ser o centro das atenções ao decifrar um complicado teorema matemático entre um gole e outro de cerveja? Entender completamente as letras do Djavan? Não foi, entretanto, favorecido com uma estrutura genética apropriada para a inteligência? Não tema. Se os antidepressivos são uma farsa, as drogas cognitivas chegaram para ajudar a realizar o sonho de todo grande jogador de futebol. Chega de se alienar com mulheres, fama e dinheiro. De agora em diante, apenas matemática, computadores e Star Wars. Viva a vida intensamente.

Mas antes, um aviso: “Cérebro + drogas = ovos fritos! Nem sempre. Algumas pílulas podem incrementar sua performance cognitiva. Mas nós aqui do Garganta não somos médicos. Qualquer um que tome uma batelada de remédios baseado em nossos palpites só pode estar chapado”.

Aqui o link para a deliciosamente bem-humorada matéria da Wired.

Wednesday, April 23, 2008

Novo site oficial de Hilda Hilst

yuri vieira, 8:46 am
Filed under: Avisos, escritores, literatura, sites
Tags: , ,

O Instituto Hilda Hilst lançou, neste mês em que a Hilda completaria 78 anos de idade, o novo site oficial da escritora. José Luis Mora Fuentes e Daniel Bilenky, que já vinham fazendo um ótimo trabalho na Casa do Sol, sede do Instituto, estão de parabéns por mais esse projeto. Desejo todo sucesso neste e em futuros empreendimentos. O sonho da Hilda começa a tornar-se realidade…

O site que fiz em 1999 continuará online apenas por razões históricas, uma vez que foi o primeiro site oficial da Senhora H.

Monday, April 21, 2008

Tempos para Otimismo ou Pessimismo

pedro novaes, 8:32 pm
Filed under: Economia, Imprensa, meio ambiente, tecnologia
Tags: 

Você acha que os tempos são para otimismo ou pessimismo? Eu sinceramente não sei.

Por um lado, discordo do catastrofismo ambientalista por achá-lo iminentemente imobilizador e calcado num deletério idealismo que, no limite, nos proíbe de viver hoje. Por outro, por mais liberal em termos econômicos que me considere, não compartilho a fé cega da economia clássica na inovação tecnológica. Parece-me evidente que há limites físicos reais ao crescimento, não apenas num futuro distante.

Pela sua importância, traduzi o ótimo artigo abaixo do economista Paul Krugman, publicado no New York Times de hoje. Sua pergunta básica é a de se a atual alta nos preços das matérias-primas refletem especulação, descompasso temporário entre oferta e demanda ou se efetivamente significam que estamos atingindo limites planetários.

Se preferir ler o artigo em inglês, clique aqui.

Sem planeta para explorar

PAUL KRUGMAN

Há nove anos atrás, a The Economist estampava uma grande história sobre o petróleo, então à venda a 10 dólares o barril. A revista avisava que isso poderia não durar. Diferentemente, sugeria que o petróleo poderia muito bem cair para cinco dólares o barril.

De qualquer maneira, a The Economist asseverava que o mundo se encontrava diante “da perspectiva de petróleo abundante e barato no futuro visível”.

Na semana passada, o petróleo atingiu 117 dólares.

Não é somente o petróleo que contradiz a complacência de poucos anos atrás. Os preços dos alimentos também dispararam, assim como os preços dos metais básicos. A escalada global nos preços de commodities faz renascer uma questão de que já não se ouvia muito falar desde os anos 70: estoques limitados de recursos naturais representarão um obstáculo para o futuro crescimento econômico mundial?

A forma pela qual se responde a esta pergunta depende essencialmente daquilo que se acredita estar impulsionando o aumento nos preços das matérias-primas. Falando de forma ampla, há três visões rivais.

A primeira é a de que se trata basicamente de especulação: investidores, em busca de altos retornos numa época de taxas de juros baixas, correram para os mercados futuros de commodities, levando para cima os preços. Segundo esta visão, em algum momento a bolha estourará e os altos preços das matérias-primas seguirão o caminho da Pets.com*.

A segunda visão é a de que os altos preços das matérias-primas têm de fato uma base em fundamentos econômicos, sobretudo a demanda rapidamente crescente dos chineses que agora comem carne e dirigem carros, mas que, com o tempo, perfuraremos mais poços, plantaremos mais hectares e a oferta maior puxará novamente os preços para baixo.

A terceira visão é a de que a era de matérias-primas baratas realmente chegou ao fim: estamos ficando sem petróleo, sem terras para a expansão da produção de alimentos e, de modo geral, sem uma planeta para explorar.

Eu me encontro em algum lugar entre a segunda e a terceira visão.

Há algumas pessoas muito inteligentes, George Soros entre elas, que crêem estarmos vivenciando uma bolha de commodities (apesar de o Sr.Soros dizer que a bolha ainda está em sua “fase de crescimento”). Meu problema em relação a esta visão é o seguinte: como estão os estoques?

Normalmente, a especulação impulsiona os preços das commodities por meio da formação de estoques camuflados. Não há, entretanto, qualquer sinal de estocagem camuflada de recursos nas estatísticas: os inventários de alimentos e metais estão próximos de seus pontos mais baixos na história, ao passo em que os inventários de petróleo estão absolutamente normais.

O melhor argumento para a segunda visão, a de que o momento crítico para as matérias primas é real, porém temporário, é a forte semelhança entre o que vemos agora e a crise das matérias primas nos anos 70.

O que os americanos mais se lembram a respeito dos anos 70 são os preços crescentes do petróleo e as filas nos postos de gasolina. Houve também, entretanto, uma severa crise alimentar global, que gerou bastante angústia nas filas dos caixas de supermercados – lembro-me de 1974, como o ano do Hamburger Helper** – e, muito mais importante, ajudou a provocar fomes devastadoras em países mais pobres.

Em retrospecto, o boom das commodities entre 1972 e 1975 foi provavelmente resultado de um rápido crescimento econômico mundial, superando a oferta, somado aos efeitos de um clima ruim e do conflito no Oriente Médio. Por fim, a má sorte acabou, novas terras passaram a ser cultivadas, novas fontes de petróleo foram descobertas no Golfo do México e no Mar do Norte, e as matérias-primas se baratearam novamente.

As coisas podem ser diferentes desta vez, entretanto: a preocupação em relação ao que poderia acontecer quando uma economia em constante crescimento força os limites de uma planeta finito soam mais reais hoje que nos ano 70.

Uma das razões para tanto: não creio que o crescimento chinês venha a diminuir de forma significativa em breve. Isso representa uma enorme diferença em relação ao que se passou nos anos 70, quando o crescimento no Japão e na Europa, as economias emergentes da época, declinou, retirando com isso muito da pressão que pairava sobre as matérias primas do planeta.

Neste meio tempo, as matérias-primas estão cada vez mais difíceis de encontrar. Grandes descobertas de petróleo são hoje poucas e cada vez mais espaçadas entre si. Nos últimos anos, a produção de petróleo a partir de fontes novas mal superou o decréscimo da produção nas fontes já estabelecidas.

E o clima ruim afetando a produção agrícola desta vez começa a parecer mais fundamental e permanente que o El Niño e a La Niña, que quebraram safras 35 anos atrás. A Austrália, em particular, se encontra agora no décimo ano de uma seca que se parece cada dia mais com uma manifestação de longo prazo de mudanças climáticas.

Suponha que realmente estejamos nos confrontando com limites globais. O que isso significa?

Mesmo que se revele que de fato estamos passando pelo ápice da produção de petróleo, isso não quer dizer que um dia iremos dizer “Oh, meu Deus? Acabou o petróleo!” e assistir ao colapso da civilização rumo a uma anarquia ao estilo Mad Max.

Mas os países ricos enfrentarão pressões constantes sobre suas economias oriundas de preços crescentes de matérias-primas, tornando mais difícil elevar os padrões de vida. E alguns países pobres se verão vivendo perigosamente próximos da borda do abismo ou cairão nele.

Não olhe agora, mas pode ser que os bons tempos tenham acabado de acabar.

*A Pets.com foi uma empresa online símbolo da bolha especulativa em torno das ações de empresas da Internet no final da década de 1990.
**Marca de comida semi-pronta nos EUA.

UPDATE: uma tradução do artigo acima foi publicada em 22/04/08 na Folha de S. Paulo (para assinantes UOL/Folha).

Pela janela

daniel christino, 2:59 am
Filed under: Cotidiano, Imprensa, especulativas
Tags: , ,

Da janela da minha sala na Universidade eu vejo um recorte geométrico do bosque. De vez em quando passam guinchando alguns macacos-prego, como num documentário do Discorevy Channel. Olham-me com urgência, assustados. Desacostumados ao pasmo sempre renovado de ver, em seu aquário de aridez, um ser humano, parecem interrogar-se sobre a possibilidade evolutiva de um animal tão estranho. E eu observo de volta. Um deles, uma fêmea, traz nas cócoras seu filhote. O macacaquinho se agarra firmemente ao pêlo da mãe, enquanto ela salta de árvore em árvore, agilmente, tentando encontrar alguma lata de refrigerante ou restos de um salgado comido pelas metades.

Numa outra janela piscam anúncios em flash. Dentro dela (ou fora daqui!) alguém me diz que uma menina foi atirada pelo pai e pela madrasta do apartamento onde moravam, no sexto andar. Eu observo os acusados jurarem inocência. Estou espantado. Noutra reportagem o apresentador se pergunta porque o caso mobilizou tanto a atenção das pessoas. Assisto a matéria. Fala um psicanalista, um sociológo e outro psicanalista. Nenhum deles diz nada sobre o repórter nem sobre o programa. O interesse das pessoas é tratado como um fato natural e a peça jornalística que nos convoca a atenção não é tematizada. É como se não estivesse lá, como se fosse transparente.

Sinto-me dentro de um cubo geométrico translúcido. A metáfora das janelas se desdobra em várias faces. Eu vejo os macacos, que me vêem, e vejo os pais da menina que não me vêem e vejo a forma de expressão da manipulação dos interesses, que não quer ser vista. Só não vejo a inocência, só não vejo o humano. A inocência atravessou a janela e se espatifou no gramado úmido.

Talvez o combustível da emoção seja o pathos da morte. Não uma morte qualquer. Não uma boa morte, coroação de uma vida plena. Mas a morte da inocência, o terror. Um pathos egóico, sem dúvida, porque vivido na tensão interior do expectar. Não o pathos da vida, a compaixão, mas o pathos associado, desde Aristóteles, às narrativas trágicas. Muitos de nós vivenciamos a morte de Isabella Nardoni pelas narrativas elaboradas pela mídia, embora ela se esforce para nos convencer de que é apenas uma janela, um meio através do qual algo nos vem ao encontro. Por que esta tragédia - assim como várias outras - nos mobiliza a atenção? Exatamente porque é uma tragédia. Porque o drama nos é apresentado num esquema estruturado de compreensão, cujos elementos nos exigem uma determinada emoção, como num script cognitivo vivenciado milhares de vezes.

Mas o terror, por outro lado, é real. A própria idéia de que a inocência está sob constante ameaça no mundo nos enche de pavor verdadeiro. Quanto mais repassamos, auxiliados pelas reconstituições minuciosamente ilustradas dos portais da Web, o que pode ter acontecido no apartamento, mais nos assustamos com o que nós somos. A forma nos ajuda e nos afasta desta disposição para o terror. Ela trai e adia esta experiência fornecendo um esquema conhecido de interpretação, ela nos torna expectadores; põe grades na janela, nos impendindo uma “queda em si”.

Na verdade se pudéssemos atravessar o palco e espiar as coxias do teatro do simbólico, perceberíamos o caráter farsesco de todo este drama. No jogo absurdo de janelas, caro leitor, algo nos elude. Na transparência entrevemos algo opaco, brumoso, adiáfano. E o que encontramos - perdidos na vertigem do olhar - não é outra coisa senão um enorme e polido espelho. E nele, a nos fitar, nossos olhos enormes de macaco.

Wednesday, March 26, 2008

Blogueiros Cubanos

pedro novaes, 2:02 pm
Filed under: Imprensa, Mídia, Política, internet, sites
Tags: 

Artigo de Elio Gaspari hoje:

O espectro do blog ronda o comunismo

ELIO GASPARI

Começou uma bonita briga, a da ditadura cubana com os blogueiros. Os septuagenários veteranos da Sierra Maestra têm uma nova guerrilha pela frente. Em vez de viver escondida no mato, ela está na rede de computadores, e seu símbolo mais visível é Yoani Sanchez, uma micreira filóloga de 32 anos que publica a página Generación Y (1,2 milhão de visitas em fevereiro). No lugar de fuzis, cabos, pen drives e celulares com câmeras.

À primeira vista, os velhotes têm vantagem. Havana tem um só ponto de navegação pela internet acessível ao público. Fica numa pequena sala e custa 5 dólares por hora (um terço do salário mensal da terra). Dos 11 milhões de cubanos, só 200 mil têm acesso à rede, passando pelo único provedor, que pertence ao governo. Essa modalidade de bloqueio é burlada por um mercado negro de senhas e de acessos noturnos em empresas estrangeiras ou mesmo em agências estatais. Até parabólicas clandestinas já apareceram e a maior parte delas é usada para baixar músicas ou filmes.

No caso de Yoani (www.desdecuba.com/generaciony), seu blog vai completar o primeiro ano de existência e está hospedado num sítio alemão. Ela transmite suas mensagens valendo-se de algumas astúcias.

Numa, fantasia-se de turista alemã, entra num hotel e despacha o texto previamente gravado. Não se pode dizer que o blog seja um palanque de dissidentes, mas, mesmo assim, no último fim de semana o Grande Irmão o envenenou com filtros que dificultavam o acesso dos cubanos ao endereço. Yoani informa que já conseguiu se desvencilhar da macumba:

“A reprimenda é tão inútil que dá pena, tão fácil de burlar que vira incentivo.”

A moça tem muita graça. Raúl Castro libera os eletrodomésticos e ela saúda a chegada dos aparelhos de ar refrigerado, lembrando que as torradeiras virão daqui a dois anos: “Nesse ritmo, as antenas parabólicas chegarão lá pela metade do século e meus netos conhecerão o GPS quando estiverem na adolescência.” Ouvindo o discurso de posse do comandante Raúl, ela se considerou um Champollion reencarnado, decifrando os hieróglifos da Pedra de Roseta, “mais fáceis de desentranhar que o estatismo tedioso da política cubana”.

Yoani lista outros dez blogs da Ilha. Um, o Havanascity, com bonitas fotografias da cidade. Outro, Lo que yo y otros pensamos sobre la realidad cubana, é pesado como o próprio nome. Todos carregam um certo gosto pela literatura. Lembram a lição de um engenheiro de computadores de São Petersburgo que, nos últimos meses do comunismo, recomendava: “Se você quer achar a democracia nesta cidade, procure a música.”

Nos anos 80 o banqueiro George Soros financiou o movimento democrático da Checoslováquia doando computadores, copiadoras e aparelhos de fax à Fundação Carta 77. Em 1991, durante a tentativa fracassada de golpe na Rússia, foram as máquinas de fax que garantiram a comunicação dos aliados de Boris Yeltsin. Comparados com a versatilidade da rede e dos pen-drives, os equipamentos de Soros são carroças.

Por enquanto, os blogs cubanos são mercadoria para consumo externo, pois na Ilha eles só estão acessíveis para a nomenklatura ou a turma do mercado negro.

Se Raúl Castro não puder conviver nem com isso, suas prometidas mudanças acontecerão em 2131, quando completará 200 anos.

ELIO GASPARI é jornalista

Pegada de Carbono

pedro novaes, 11:51 am
Filed under: internet, meio ambiente, sites
Tags: 

GW

O Instituto de Defesa do Consumidor e o Vitae Civilis desenvolveram um calculador de pegada de carbono adaptado para o cidadão urbano brasileiro.

Monday, March 24, 2008

Obama na Piauí, e não no Piauí

pedro novaes, 1:49 pm
Filed under: Imprensa, Mídia, Política
Tags: 

“O espírito da liberdade é o espírito que não tem muita certeza de ter razão.”

Learned Hand, juiz americano (1872-1961).

A frase acima, que considerei genial, está na ótima matéria publicada na Piauí deste mês sobre Barack Obama. A revista, como sempre, está excelente, e disponibiliza todo o seu conteúdo na Internet.

Saturday, March 22, 2008

Deixa pra segunda…

diogo, 12:34 am
Filed under: Imprensa, Política
Tags: 

Já são 32 mil as vítimas de dengue no estado do Rio de Janeiro. São 294 casos por dia, segundo a Secretaria de Saúde. Se o combate não funciona, a estatística pelo menos não falha. O ministro da Saúde, o Temporão, juntou os secretários de Saúde estadual e municipal para formar um gabinete de crise. Lá discutirão o que fazer. Pressupõe-se que por ora não saibam. Mas isso também não importa, aliás, é tão irrelevante que o tal gabinete de crise ficou para segunda-feira.

Urgente são apenas as recomendações da Secretaria de Saúde do Estado: as pessoas devem usar calças compridas e meias, pois o mosquito gosta de picar as pernas e pés. Nem precisa fazer piada!

Aqui nos Estados Unidos, todos ficam pasmos ao saber que no Brasil um simples mosquito mata pessoas. Eu explico que por mais que eu odeie políticos, saber que são eles que atrasam o país, que nos roubam, nos fazem de idiotas e etc, a culpa dessa epidemia é da população. É questão de higiene. Quem com a mínima noção dela, deixa latas e pneus velhos largados nos quintais e nas ruas? Ou, então, as caixas d’água abertas para ratos, baratas, cachorros, pulgas e mosquitos da dengue procriarem dentro delas?

É verdade que políticos são sempre culpados, até mesmo quando inocentes. Mas convém lembrar que é essa população - a dos pneus velhos e caixas d’água cheias de baratas e mosquitos da dengue - que elege esses vagabundos que em meio a uma epidemia, a primeira providência é criar um gabinete de crise na próxima segunda-feira. Isso já é um pouco difícil explicar pros americanos, ainda mais com um inglês meia-sola como o meu.



Page 3 of 39«12345»...Last »