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Tuesday, 28 de August de 2007

Fidelidade

ronaldo brito roque, 1:44 pm
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Hoje eu sei que aquilo se chamava barriga. Mas na época, mesmo que conhecesse a palavra, talvez eu preferisse não usá-la. Não seria exato falar em “dor de barriga”. A sensação nascia no centro mesmo do meu ser e se irradiava pelo corpo, com tal velocidade, que eu me debatia, esticava as mãos e gritava, mesmo antes de distinguir o que eram mãos, braços, pernas, laringe e cordas vocais. Eu era um corpo vibrátil, quase um fluido. Qualquer ponto estimulado levava instantaneamente à resposta de algum outro ponto distante e insuspeitado. Lembro, por exemplo, que um tipo particular de excitação nas minhas extremidades inferiores causava um som suave e ritmado que eu já quase identificava como riso. Pequenos toques na minha cabeça e na sobrancelha me faziam relaxar e ter vontade de fechar os olhos. Sons agudos na minha direção me deixavam atento e silencioso, com um pouco de medo. Às vezes minha respiração era interrompida e, mesmo que não quisesse, eu era forçado a fechar os olhos, porque minha boca crescia de forma a quase não caber no rosto: era um bocejo. Também acontecia de minhas nádegas vibrarem e eu me livrar de uma pressão incômoda e insistente logo abaixo do peito.

Mas naquele dia, minhas nádegas não vibraram. Alguma coisa atrás do meu umbigo exigia uma atenção urgente e decisiva. Sem saber o que fazer, eu me remexia e emitia os sons que me pareciam melhor traduzir aquela urgência.

Até que alguém soube me compreender. Senti primeiro um certo calor envolvendo minha pele, depois uma voz suave e constante que indicava a presença de uma pessoa humana e caridosa. Meus lábios identificaram alguma coisa quente e pontuda, um objeto nítido, consistente, seguro, que eu mordi com convicção, ou simplesmente pressionei entre os lábios, já que não tinha dentes. O líquido veio quente, abundante e grosso. Eu não tinha dificuldade em engolir, depois que um tantinho fazia volume na minha boca. Aquele ato de alguma forma já estava em mim, e eu apenas o descobria silenciosamente. Eu me entregava confiante, como um peixe se entrega à enormidade plácida e invencível da água. Meu corpo foi aos poucos sossegando e fui compreendendo os conceitos que mais tarde se traduziriam em prazer, satisfação, felicidade. Abri os olhos e vi um rosto humano, arredondado, os olhos nítidos e serenos, brilhando por trás da sombra dos cabelos. Intuí que aquilo era uma espécie de música angelical, a sensação mais sagrada que eu teria nesta vida. Então, sem hesitar um mínimo segundo, eu jurei, prometi silenciosamente, sem tirar os olhos dela, que nunca na minha vida, nem que eu vivesse cem anos, nem que eu voltasse à infância, nem que eu descobrisse uma alma imortal e vivesse eternamente, eu nunca na minha vida tomaria o leite de outra.

No que tange a mulheres, foi de fato o único juramento que nunca quebrei.

Monday, 27 de August de 2007

Joel Silveira

rodrigo fiume, 11:11 pm
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Para muitos e muitos, é considerado o maior repórter brasileiro. Da Caros Amigos:

Joel Silveira, o repórter dos presidentes, morreu no último 15 de agosto, aos 88 anos. “A víbora” , como era conhecido, viveu a história de perto, denunciava os medíocres e marcou o jornalismo. Releia entrevista concedida para a Caros Amigos em abril de 2000. Vale a a pena ler de novo!

(Continua…)

Thursday, 9 de August de 2007

Admirável Mundo Novo no teatro

yuri vieira, 9:23 am
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Eis uma matéria no Correio Brasiliense sobre a peça que estou adaptando com a diretora teatral Miriam Virna - Admirável Ainda - a partir do romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Hoje, em Brasília, rolará a primeira leitura pública.

Friday, 3 de August de 2007

Um mergulho aristotélico-stanislavskiano

Trecho de mais um artigo imprescindível, Quando a alma é pequena:

“(…) Esse medo, por sua vez, revela-se da maneira mais inconfundível na literatura de ficção nacional. Repassando mentalmente as produções maiores da nossa criação romanesca – índice seguro da imaginação das classes letradas –, o que me chama a atenção em primeiro lugar é a falta absoluta de problemas, de enigmas, de perplexidades. O romancista brasileiro limita-se a retratar situações vistas segundo a ótica de uma filosofia ou ideologia preexistente, de modo que tudo no fim parece óbvio e explicado. Não estou falando de escritores ruins, mas justamente dos melhores. Tomem o excelente Graciliano Ramos no mais bem sucedido dos seu livros, São Bernardo , no mais popular, Vidas Secas , ou no mais ambicioso, Angústia . O que se vê nos dois primeiros são equações de sociologia desenvolvidas com a lógica de uma demonstração matemática, a condição de classe dos personagens determinando suas escolhas e produzindo inevitavelmente o destino correspondente: o senhor de terras age como um senhor de terras, a professorinha como uma professorinha, o camponês diante da autoridade como um camponês diante da autoridade. É tudo muito bem observado, muito bem construído, mas não suscita um único “por que?”. No terceiro romance a fórmula parece complicar-se um pouco mediante a introdução de elementos de psicopatologia, mas no cômputo final estes se somam aos dados sociológicos e explicam tudo. Ninguém nega que esses livros sejam obras-primas à sua maneira, mas, se eles nos ensinam algo sobre a vida brasileira e algo sobre como se escreve um romance, não abrem nossa inteligência para nenhuma questão que ali já não esteja de algum modo respondida. Não têm a força fecundante da grande arte literária. O mesmo pode-se dizer de quase toda a produção de Raul Pompéia, José Lins do Rego, Jorge Amado, Lima Barreto, Guimarães Rosa, José J. Veiga, Antônio Callado, Herberto Sales, Josué Montello e outros tantos.

“Você não pode ler o teatro grego, Shakespeare ou Dostoiévski sem perceber que ali se encontra algo de perfeitamente real e ao mesmo tempo inexplicável, lógico e ao mesmo tempo absurdo. Os ensaios de interpretação podem se multiplicar ao longo dos séculos sem jamais dar conta do mistério. A grande literatura de ficção mostra-nos como é a vida humana, mas não pode nos explicar o porquê. Para fazê-lo, teria de subir um grau na escala de abstração, tornando-se análise e teoria, abandonando portanto a contemplação da vida concreta, que é o seu terreno específico. Mesmo os romances mais complexos do século XX, que incorporam elementos de análise filosófica, como A Montanha Mágica de Thomas Mann, Os Sonâmbulos de Hermann Broch, O Homem Sem Qualidades de Robert Musil ou a trilogia de Jacob Wassermann ( O Processo Maurizius , Etzel Andesgast e A Terceira Existência de Joseph Kerkhoven ) não têm por resultado uma teoria explicativa mas a expressão formal concreta de um aglomerado de tensões sem solução. Daí o fascínio mágico que continuam exercendo sobre o leitor por mais que este, eventualmente filósofo ele próprio, se esmere em transformar o egnima em equação. A equação resolvida é sempre genérica, não esgota nunca a infinidade de sugestões embutidas na trama particular e concreta.

“Nada disso se observa em geral na ficção brasileira, uma literatura de segunda mão que nasce do recorte da experiência pelo molde de explicações previamente dadas. A análise das obras esgota rapidamente a problematicidade da sua cosmovisão, não sobrando outro enigma senão, é claro, o do talento individual que encontrou soluções tão boas para a transposição estética de uma vivência espiritual tão pobre.(…)”

Wednesday, 1 de August de 2007

O artigo do Rubem Fonseca

yuri vieira, 2:41 am
Filed under: Arte, escritores, literatura
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O artigo do maestro Rubem Fonseca no Digestivo Cultural - A literatura de ficção morreu? - me lembrou esta máxima do Oscar Wilde (cito de memória): “A vida artística não é senão o desenvolvimento da própria personalidade”. Ora, porque viveram outras personalidades antes de mim minha vida não faz sentido e por isso não mereço viver? Um escritor contemporâneo deve apenas responder a essa questão. Quanto a ser sua personalidade - sua imaginação! - vasta ou medíocre, eis um problema para o leitor, não para ele. Um dedo não pode tocar a própria ponta.

Wednesday, 18 de July de 2007

Admirável argumento

yuri vieira, 12:08 am
Filed under: Religião, amigos, literatura, livros, teatro
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Estive ajudando a Miriam Virna - diretora teatral de Brasília - a adaptar o livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, para teatro. Eis um trecho bastante interessante quase ao final do livro (trata-se de um outro livro citado pelo personagem Mustafá):

“Envelhecemos, percebemos em nós aquele sentimento radical da fraqueza, da atonia, do mal-estar devido ao peso dos anos, e dizemo-nos doentes, embalamo-nos na idéia de que este estado penoso é devido a uma causa particular, de que esperamos curar-nos como nos curamos de uma doença. Vãs cogitações! A moléstia é a velhice, e ela é miserável. Precisamos de nos resignar… Diz-se que se os homens se tornam religiosos ou devotos com o avançar dos anos é porque têm medo da morte e do que a deve seguir. Mas tenho, quanto a mim, a consciência de que, sem nenhum terror semelhante, sem nenhum efeito de imaginação, o sentimento religioso se pode desenvolver à medida que avançamos em idade, porque, tendo-se acalmado as paixões, a imaginação e a sensibilidade menos excitadas ou excitáveis, a razão é menos perturbada no seu exercício, menos ofuscada pelas imagens ou afeições que a absorviam. Então Deus, Supremo Bem, sai de trás das nuvens, e a nossa alma sente-O, vê-O, voltando-se para Ele, fonte de toda a luz, porque, tudo desaparecendo no mundo sensível, a existência fenomenológica deixando de ser sustentada pelas impressões externas e internas, sentimos a necessidade de nos apoiarmos em qualquer coisa que permanece e não engane, numa realidade, numa verdade absoluta, eterna. Porque, enfim, este sentimento religioso, tão puro, tão doce de sentir, pode compensar todas as outras perdas…”

Saturday, 14 de July de 2007

Meu livro no Flashpaper

Você conhece o Macromedia Flashpaper? Achei esse programa simplesmente genial. Você pode embutir um livro inteiro em seu site ou blog. Através da barra de ferramentas, é possível ampliá-lo e ocupar toda a tela do navegador, imprimi-lo, fazer buscas, etc. Muy bueno.


Wednesday, 27 de June de 2007

Adeus, Bruno!

yuri vieira, 3:14 pm
Filed under: Avisos, amigos, escritores, literatura
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Faleceu hoje o mestre e amigo Bruno Tolentino, que conheci em 1998, na casa da escritora Hilda Hilst, no dia do meu aniversário de 27 anos. Bruno também morou ali na Casa do Sol - por cerca de oito meses - e, além de termos feito algumas feijoadas juntos, discorremos sobre todo tipo de assunto, principalmente literatura, arte, política e religião. Juntamente com a Hilda e com o escritor Mora Fuentes, costumávamos também, ao final daquelas saudosas tertúlias diárias, assistir a clássicos do cinema. Nunca me esquecerei da expressão em seu rosto quando, certa tarde, apareceu em meu quarto para reclamar do CD que eu estava ouvindo e que, segundo deixou claro, o estava incomodando em seus afazeres: Passages, de Philip Glass e Ravi Shankar. “Essa composição está andando em círculos, não tem a saída da espiral! Isto não é música, é a música como idéia…”, comentou, parafraseando o título do livro que vinha finalizando, O Mundo como Idéia.

Amigo e mestre, vá com Deus e mande um beijo pra Hilda.

Ilustração de Cesar Kayanoki

yuri vieira, 1:46 am
Filed under: literatura, plásticas
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Esta é uma ilustração de Cesar Kayanoki para meu conto O Abominável Homem do Minhocão. (Nela, vemos o protagonista acompanhado por Topo Gigio.) Clique na imagem para ver uma versão ampliada.

Abominavel

Sunday, 10 de June de 2007

Brasil: uma terra sem sal?

Leio os Sermões do Padre Antônio Vieira desde muito antes de realmente saber o que é a fé. E isso apenas por conselho do Fernando Pessoa que, em suas Obras completas em prosa, ressalta o prazer que é escorregar a língua por aquelas belas palavras e por suas excelentes construções sintáticas. Sim, lia por razões puramente estéticas. (Aliás, vale notar a influência do estilo de Vieira nos ensaios estéticos de Pessoa.) A questão é que, em 1997, após deixar a UnB e sua biblioteca, fiquei algum tempo sem ler os Sermões. Então, anos mais tarde, comprei no Sebo do Messias, em São Paulo, um volume publicado pela editora do Mário Ferreira dos Santos, a Editora Logos. E cá estou a ler novamente o Vieira, não apenas sob a perspectiva estética, mas, agora, também sob o ponto de vista moral e religioso. (Atenção, sou um cristão com upgrade, sou “urantiano”.) E encontrei, no Sermão de Santo Antônio - pregado na cidade de São Luís do Maranhão, no ano de 1654 - uma excelente descrição dos dias atuais, isto é, uma época de corrupção generalizada, na qual, estivesse Santo Antônio vivo, estaria pregando tal como Vieira diz que ele certa vez pregou, ou seja, aos peixes, já que os humanos estão todos surdos. O humor de Vieira é notável. Seu sermão é também todo ele dirigido aos peixes, o que me faz imaginar um monte de colono com cara de “mané” e “jaquim” a ouvir de má vontade o irônico padre.

Quem já leu o Evangelho, sabe que Jesus disse: “Vós sois o sal da Terra”. Eu sempre pensei que isso tivesse algo a ver com o fato de sermos, por assim dizer, a quintessência da vida do planeta, aqueles que dão sabor a essa vida que de outra forma seria puramente zoológica. Outros dizem que ser o “sal da terra” significa simplesmente “fazer a diferença”, uma vez que a comida sem sal é uma coisa completamente sem graça. Mas este “fazer a diferença” é um conceito puramente anglo-saxão… Vieira, por outro lado, afirma que ser o sal da Terra é fazer parte daqueles que conservam o mundo contra a corrupção e a putrefação, uma vez que o sal, desde épocas imemoriais, sempre foi utilizado antes como conservante que como tempero. Os peixes e as carnes sempre foram salgados, não para ficarem mais gostosos, mas para não apodrecerem. Se Jesus estivesse andando por aí, nos dias de hoje, certamente diria: “vós sois a geladeira da Terra, o refrigerador, o freezer…”

Nessa perspectiva, não é nada difícil perceber que o Brasil tornou-se, nas últimas décadas, uma terra completamente sem sal. Os humanistas podem espernear e bradar por uma moral sem raízes religiosas, mas isto não entra na cabeça de mentalidades simplórias e, principalmente, na de mentalidades cínicas e perversas. Sem uma paternidade espiritual, sem uma fraternidade fundada em princípios indestrutíveis, não há clima de confiança que consiga manter a sociedade unida. E o Brasil, por melhor que ande a economia e seus juros, está cada dia mais mergulhado em corrupção. Até já exporta a dita cuja. O Isaac, editor do meu curta-metragem, que morou muitos anos nos EUA, me disse que grande parte desses brasileiros que voltam com as burras cheias de dinheiro apenas fazem o seguinte: trabalham seis meses e, em seguida, vão a um banco pedir um empréstimo. Os bancos, acostumados com uma sociedade de tradições puritanas, confia naqueles que os procuram e emprestam a grana. E os tais brasileiros retornam a seu país de origem com 50.000 dólares que jamais serão devolvidos… Daí os bancos americanos não estarem mais autorizando empréstimos a brasileiros que vivam há tão pouco tempo naquele país. Porque brasileiros não são confiáveis. Porque são naturalmente corruptos e crêem estar levando vantagem sobre os americanos otários. São, enfim, pessoas oriundas de uma terra cada vez mais sem sal…

Tuesday, 5 de June de 2007

Profissão de Fé

yuri vieira, 5:17 am
Filed under: Religião, livros
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No site do Mário Ferreira dos Santos (1907-1968), há uma página com os próximos livros a serem relançados. Um deles se chama “Cristianismo, a religião do Homem“, do qual podemos ler o seguinte excerto:

“A única esperança que nos resta de salvar a humanidade da destruição é o cristianismo. Nunca teríamos de lutar tanto quanto hoje. O meu desejo era este, vou confessar agora, eu sempre desejei à minha volta pessoas capazes de um dia ajudar num trabalho de pregação religiosa, mas de pregação séria, independente das seitas, independente das diversas igrejas, nesse verdadeiro sentido do cristianismo, a religião do homem abrindo as portas, porque nós estamos hoje vivendo uma época de desenvolvimento técnico e de desenvolvimento científico, de desenvolvimento cultural em muitos aspectos, mas completamente esvaziada de espiritualidade e sem essa espiritualidade tudo isso é falho, tudo isso é fraco. Só o cristianismo nos poderá dar esta base que nos está faltando: o homem não pode viver sem religião”.

Friday, 1 de June de 2007

Culto laico

yuri vieira, 2:31 am
Filed under: escritores, livros
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Do escritor romeno Vintila Horia, Viagem aos centros da Terra:

“É evidente que a psicologia, sobretudo a freudiana - e Jung pressentiu-o logo desde o primeiro encontro com Freud -, se transformou, com o tempo, numa filosofia, no sentido mais vulgar do termo. O homem para quem ‘Deus morreu’, como reza o desespero contemporâneo, tem que se refugiar numa algaravia. E aquele que não se quer politizar, ou vender a alma ao diabo, põe-se a acreditar na psicanálise ou nos seus sacerdotes. É todo um culto laico, engendrado por um profeta do século XX, de cuja propaganda se encarregaram, pelo menos ao princípio, as mulheres, como acontece na fase inicial de todas as religiões.”

Ah, apenas um adendo: Harold Bloom acredita que, mais dia menos dia, as pessoas perceberão que não há, num sentido estrito, ciência alguma nos escritos de Freud. Para ele, Freud será lido como um grande ensaísta nos moldes de Montaigne.

Wednesday, 30 de May de 2007

Günter Grass no New Yorker

daniel christino, 3:50 pm
Filed under: Imprensa, escritores, internet, literatura, livros
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Para quem curte o escritor alemão Günter Grass, e acompanhou a polêmica em torno da sua autobiografia, o site da revista New Yorker publicou um relato do cara sobre sua juventude na Luftwaffe, bastante detalhado. Para quem não sabe, Grass alistou-se no exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Entre relatórios e notícias do front, visitas regulares à família nos finais de semana e devaneios literários - a cabeça delicadamente apoiada numa metralhadora anti-aérea 88-mm -, Grass vai confessando intenções e sentimentos nem sempre muito nobres a respeito dos motivos e consequências das suas decisões. O trecho sobre seus pais é especialmente revelador.

The two-room hole. The family trap. Everything there conspired to constrain the weekend visitor. Not even the mother’s hand could smooth away the son’s distress. True, he was no longer expected to sleep in his parents’ bedroom like his sister, but even on the couch made up for him in the living room he remained a witness to the married life that continued unbroken from Saturday to Sunday. That is, I could hear—or thought I could hear—sounds I had heard, muffled as they were, from childhood on, sounds that had lodged in my mind in the form of a monstrous ritual: the anticipatory whispers, the lip-smacking, the creaking bedsprings, the sighing horsehair mattress, the moaning, the groaning, the entire aural repertory of lovemaking, so potent, especially in the dark. I had a clear picture of all the variations on marital coupling, and in my cinematic version of the act the mother was always the victim: she yielded, she gave the go-ahead, she held out to the point of exhaustion.

The hatred of a mother’s boy for his father, the subliminal battleground that determined the course of Greek tragedies and has been so eloquently updated by Dr. Freud and his disciples, was thus, if not the primary cause, then at least one of the factors in my push to leave home.

Havia também o tédio e o romantismo guerreiro do Sturm und Drang alemão.   

All winter long, the front moved closer to home. The Wehrmacht’s high command tried to tone down the retreat by dubbing it a front-straightening operation. Victory bulletins virtually ceased, and more and more bombardment victims were seeking refuge in our city and its environs. The urge to break away, to flee to any front that would have me, had lost its force. My desire was moving in another direction: I read Eichendorff and Lenau at their most romantic, pored over Kleist’s “Kohlhaas” and Hölderlin’s “Hyperion,” and stood guard by the ack-ack guns, lost in thought, my eyes wandering over the frozen sea.

Há uma história em movimento nestes relatos de vida pessoais durante este período na Alemanha - de Viktor Klemperer a Albert Speer. Para além das análises históricas de longo alcance ou das detalhadas biografias de grandes personalidades, a percepção da vida cotidiana como síntese da totalidade da experiência de uma época faz ressurgir - ressuscitar, como diria Michelet - o sentido mais essencial do viver. Há uma autenticidade neste relatos que nenhum texto moralista, por exemplo, poderia proporcionar, principalmente ao esclarecer como o “medonho” plasmou-se ao viver cotidiano. Por isso, talvez, nos cause estranheza a imagem do Hyperion de Hölderin, aberto, rabiscado, apoiado sobre os canhões enquanto o olhar do leitor/soldado mira o “mar gelado”. Vale a leitura. 

Tuesday, 22 de May de 2007

Brian K Vaughan

yuri vieira, 8:52 pm
Filed under: HQs, Second Life, escritores
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Dia 18 de Maio rolou uma entrevista com Brian K Vaughan, roteirista de quadrinhos ou, como se diz hoje, autor de “novelas gráficas”. Sim, foi no Second Life, aquele “joguinho”. (Não me lembro dos nomes, mas algumas personalidades acreditaram que invenções tais como o telefone e o rádio também não passavam de brincadeiras. A própria IBM acreditava que esse negócio de Personal Computer não era senão uma tremenda perda de tempo. Em suma, a caravana passa…)

Negócio da China 2

yuri vieira, 6:48 pm
Filed under: Cotidiano, Economia, Política, livros, tecnologia
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Já havia comentado neste blog a respeito de certa tática sui generis dos capitalistas chineses. Semana passada, tomei conhecimento de outra. Amigos recém chegados da França e da Espanha trouxeram a confirmação de algo que já tinha ouvido por alto aqui no Brasil. É o seguinte: um cidadão chinês vem ao nosso paiseco - ou à França ou à Espanha ou a sei lá qual buraco deste mundo - encontra um imóvel numa área adequada para instalar um comércio e, então, cheio de “boas” intenções, entra em contato com o governo de seu país. (Lembre-se: o capitalismo chinês é do pior tipo, um capitalismo de Estado. E, sendo a China comunista, nem é preciso esclarecer uma vez mais este ponto: ao contrário do socialismo, o capitalismo é menos um sistema que um instrumento. Ou ainda: é menos um sistema operacional que um mero sofware. Sacou a analogia?) Enfim, ele recebe do governo chinês a verba necessária para adquirir o imóvel e iniciar uma empresa. Em outras palavras: ele se torna apenas um pau mandado daquele governo. E sua contrapartida não é senão o compromisso de vender apenas produtos fabricados e importados da China…

Se as pessoas se chateavam tanto com o capitalismo americano e europeu - que ao menos trazia a indústria para cá, fornecendo-nos empregos e retirando tão somente parte dos lucros (merecido, vale dizer) - agora sim irão ver o que que é bom para a tosse. E pensar que Spengler previu tudo isso em seu livro “O homem e a técnica”, publicado em 1931…

Monday, 21 de May de 2007

Apenas mais um domingo

ronaldo brito roque, 11:25 pm
Filed under: literatura
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Quando eu perguntei se ele gostava de mim, ele respondeu mecanicamente, “gosto, ué”, e eu percebi que ele estava mentindo, mas ele baixou os olhos e ficou levemente vermelho, como se sentisse uma súbita vergonha da mentira, e eu entendi que aquilo mudava totalmente o sentido da frase, porque uma mentira que você diz mecanicamente já é diferente de uma mentira que você tem vergonha de dizer. Ele não sabe, mas é por isso que eu volto. Eu podia dizer que não trabalho aos domingos, ou nem atender ao celular quando vejo o número dele. Mas eu lembro daquela carinha vermelha e me dá vontade de saber o que tem atrás daquela cor. Já era a terceira vez, a gente fazia tudo sempre igual. Ele tirava a primeira, depois me oferecia sorvete, ligava a televisão, a gente ficava de bobeira, ele fumava, eu lixava unha, ele tirava a segunda e dizia que ia me chamar um táxi, que eu sei que é o jeito de um cliente dizer pr’eu ir embora. A mulher, quando eu vi a foto no porta-retrato, eu pensei que talvez ela estivesse morta. Não tinha idade para morrer, mas existe câncer, existe bala perdida, acidente de carro, tanta coisa que pode acontecer… Mas um dia alguém telefonou, e ele falou “sei, sei”, depois falou “é claro, amor”, e eu percebi que ela estava viva e ainda pedindo pr’ele passar no supermercado. Desde aquele dia eu olho a foto de um jeito diferente. Essa mulher tão feinha, essas rugas, esse sorriso amarelo, ela parece tão infeliz. Eu sinto no cansaço dela a quantidade de sonho frustrado, as viagens que ela não fez porque o menino estava com bronquite, a empregada que ela não contratou porque tinha que sobrar para o curso de inglês, os livros que ela não leu porque não queria ler mesmo, mas ela consegue pensar que também foi por causa do menino ou do marido. E eu penso em todos os livros que eu li, penso naquelas tardes maravilhosas em Cabo Frio, recordo aquele cliente generoso que me apresentou ao carpaccio e ao petit-gateau, e me custa admitir que eu também sou infeliz. Mas eu estou cansada de ser infeliz do meu jeito, queria ser infeliz do jeito dela! E, mesmo presa no silêncio da foto, seu riso agora é um riso de zombaria. De alguma forma ela percebe que saiu vitoriosa, ela sente que a infelicidade dela é melhor que a minha. Eu digo que vou beber água, mas eu não estou com sede, eu quero entrar mais uma vez na cozinha, olhar os recados na geladeira, cheirar os vidrinhos de tempero, espantar as mosquinhas que já começam a incomodar as frutas. E de repente eu percebo que tem alguma coisa nessa cozinha que me escapa completamente, algo que nunca vou conhecer, mesmo que me aposse daquele homenzinho da sala e conviva para sempre com seu hálito e sua calvície. É talvez buscando essa coisa misteriosa que eu abro a geladeira e descubro numa vasilha os corações de galinha, vermelhos e crus, quase como morangos. Eu sei fazer coração de galinha, é muito fácil, é só fritar com tempero e cebola. Eu posso fritar agora e a gente come no palitinho, enquanto ele descansa e vê televisão. Uma alegria boba me invade, sinto que vou me apropriar de uma pequena parte da cozinha, a mulher já vai me olhar de outro jeito quando eu voltar à sala, talvez assustada, acuada na sua moldura de porta-retrato. Mas eu chego na sala e ele está abotoando a calça, o cigarro está morto no cinzeiro, ele pega o telefone e diz que vai me chamar um táxi.

No caminho para casa, passo num mercado vinte e quatro horas. Quando os corações estalam na frigideira, eu ainda tenho uma vaga lembrança de um porta-retrato, uma mulher triste que teima em sorrir, um homem que transa de meias e precisa de óculos até para ver televisão. Mas um minuto depois, eu estou engolindo a carne macia, e consigo acreditar que eu comprei coração porque é barato e fácil de fazer. Eu posso estar triste agora, mas eu sei que, quando amanhã chegar, eu vou achar que hoje foi apenas mais um domingo.



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