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Thursday, 3 de January de 2008

Capitalismo 3.0

pedro novaes, 6:00 pm
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Barnes

Resenha do José Eli da Veiga, publicada em O Valor desta quinta, do livro Capitalism 3.0, de Peter Barnes.

A necessidade de criar uma ‘versão 3.0′
Por José Eli da Veiga, para o Valor, de São Paulo
03/01/2008

“Capitalism 3.0 - A Guide to Reclaiming the Commons” - Peter Barnes
Berrett-Koehler Publishers, Inc., R$ 48,77. Com versão eletrônica gratuita em http://www.onthecommons.org

É raro que um livro abra com duas sentenças tão reveladoras de sua mensagem: “Sou um empresário. Creio que a sociedade deve premiar toda e qualquer ação lucrativa que tenha êxito”. Mas são afirmativas que jamais haveriam rendido texto tão estimulante se não tivessem entrado em colisão frontal com outra profunda convicção do autor: “Sei que atividades lucrativas têm insanos efeitos colaterais: poluição, lixo, desigualdade, ansiedade, e pesadíssima confusão sobre o propósito da vida.”

Para complicar, o conhecimento histórico também já o havia convencido que governos - por mais representativos que possam ser - se já não cuidam direito dos interesses dos cidadãos, muito menos podem ser capazes de proteger os interesses de gerações futuras. Principalmente porque tendem a dar muito mais importância aos interesses das corporações privadas. Um problema que na democracia capitalista é sistêmico, segundo Peter Barnes, autor do livro “Capitalism 3.0 - A Guide to Reclaiming the Commons”.

(Continua…)

Thursday, 20 de December de 2007

O Poder da Atração do Fiofó

pedro novaes, 6:19 pm
Filed under: escritores, literatura, livros
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Sexo Anal

Olhaí, eu falo e ocêis não m’iscuta.

Se depois eu fizer um filme desse livro e ficar famoso, não vão dizer que eu não avisei. Saiu a edição de bolso do Sexo Anal pela Os Viralata. São só 50 exemplares. Garanta o seu porque daqui a uns anos vai valer ouro. Além de tudo, um excelente presente pro Natal em família.

Novelo de Teseu

pedro novaes, 8:00 am
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Gore

Embora voltado para a realidade do cinema independente americano, o “Ultimate Festival Survival Guide”, escrito por Chris Gore, traz informações bastante interessantes também para o nosso mundo aqui embaixo. Entre outras coisas, ajuda a pensar uma estratégia coerente e realista para a busca de festivais adequados a seu filme e propósitos, economizando grana e maximizando as chances de sucesso. Quem já tentou, sabe que enorme labirinto é a infinita miríade de festivais aqui no Brasil e no exterior. Catorze dólares na Amazon, fora o frete.

Vai para a nossa Biblioteca do Cineasta Digital , no Olho de Vidro, blog de nossa produtora, a Sertão Filmes.

Friday, 14 de December de 2007

Porque eu não escreveria Virgínia Berlim

pedro novaes, 3:29 pm
Filed under: escritores, literatura, livros
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VB

Conforme prometido, li anteontem o Virgínia Berlim, último livro do Biajoni, autor do já incensado Sexo Anal. Servi-me de um copo de uísque e deitei no sofá. O primeiro detalhe bacana é o CD que acompanha o livreto, que conta ainda com as letras, originais e traduzidas, das canções prensadas no disco: uma trilha sonora para a própria história, que tem Bing Crosby, Lou Reed e outros. Uma linda seleção, perfeita para acompanhar o affair de um camarada imobilizado em seu apartamento por um pé cortado e a escriturária Virgínia que irrompe em sua vida e dá título ao livro.

A leitura transcorre fácil, menos de 50 páginas, ao longo de meia hora ou pouco mais. Que não se espere outro Sexo Anal porque VB é bem diferente. Como já se disse por aí, é como se nos fosse permitido espiar um fragmento de uma vida durante algum tempo. É bonito e impactante. Termina-se a leitura com uma tristezinha. Enquanto o Sexo Anal mexe com a gente pelo que tem de cru, violento e libidinoso, Virgínia Berlim emociona de verdade por uma outra crueza, relacionada ao sentido e à banalidade de nossas vidas e das vidas dos outros, e por falar de arrependimento e de falta de respostas. Sexo Anal é irônico e de um excelente humor negro. VB é composto de notas tristes e meio perplexas.

Eu não escreveria VB porque sou idiota e volta e meio tenho uma estúpida tendência à idealização e ao melodramatismo, à autocomiseração e para colocar nos personagens a pena que sinto de mim mesmo, vítima do mundo. O Bia, ao contrário, não tem pena dos seus personagens: eles são feios, têm espinhas e hemorróidas, estrias, peitos caídos, trabalham em repartições e têm vidas comuns e tacanhas. Se isso soa meio Bukowiskiano, o Biajoni se separa do mestre californiano porque suas histórias não passam qualquer rancor. Não há ressentimento com a humanidade. Estão mais pra Almodóvar.

Compra lá.

Wednesday, 12 de December de 2007

Com Biajoni, no Rio (II)

pedro novaes, 4:08 pm
Filed under: baladas, escritores
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Biajoni e Pedro

O Biajoni - vulgo Camarão - e eu, testando a qualidade dos serviços no Rio de Janeiro.

No Rio, com o Biajoni

pedro novaes, 11:18 am
Filed under: baladas, escritores, literatura
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SA

Domingão, umidade a 105% e calor de 57 graus, tive o enorme prazer de desfrutar do excelente serviço dos bares cariocas (post sobre isso brevemente) na companhia de ninguém mais, ninguém menos, que o Luiz Biajoni, autor do imperdível Sexo Anal - Uma Novela Marrom, sobre o qual já falei aqui, e agora de Virgina Berlim que, se nenhum chato vier me pentelhar, vou ler hoje à noite, tomando um whiskey e ouvindo o CD de trilha sonora que o acompanha. Todo o mundo que leu, diz que é do caralho. Aliás, se você não baixou Sexo Anal, meio que se ferrou porque o livro não está mais disponível pra daunloudi. Em comemoração aos 10 mil daunloudis e 16 recusas por editoras, a Os Viralata vai lançar uma edição comemorativa de bolso. Corre lá e encomenda o seu (são só 100 exemplares): excelente presente pro Natal em família.

Enfim, o Biajoni é uma besta: depois de 51 chopps (uma vitória conseguir esta marca com o mau humor e excelente serviço dos garçons cariocas), tínhamos tudo tramado para dominar o mundo, mas nem minha prima doida conseguiu convencer o Bia a dar o rabo, pois ela tem certeza de que a fixação dele com a Analtomia dos outros significa que, no fundo, ele quer doar o seu.

Furthermore, atesto, conforme já dito por aí pelo Alex Castro, que o Bia, decepção geral, é o cara mais normal do mundo, a despeito das evidências contrárias. Uma figuraça. Agora, sempre que for a São Paulo, vou ter que dar um jeito de parar em Americana.

Saturday, 1 de December de 2007

“Literatura é para parasitas”

yuri vieira, 9:02 am
Filed under: Imprensa, escritores, literatura
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Diogo Mainardi, em entrevista ao Digestivo Cultural:

“Literatura é para desocupados e parasitas. Por muito tempo, fui um desocupado e um parasita. Eu era mantido por meus familiares e por minha mulher. Quando precisei ganhar dinheiro para sustentar meus filhos, arrumei um emprego e larguei os livros. Pode parecer uma explicação prosaica demais, mas foi o que aconteceu. Abandonar a literatura não foi uma decisão literária. E não teve nenhuma conseqüência, exceto para mim. Não sou um Rimbaud. Quanto ao comichão literário, não sei o que é isso. Nunca escrevi porque tinha a necessidade de escrever: escrevia porque era o que me interessava fazer.”

Thursday, 15 de November de 2007

Hoje não

ronaldo brito roque, 5:05 pm
Filed under: Cotidiano, literatura
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Hoje ele não quer chupar peitos — nem os mais redondos e firmes. Não quer ver uma mulher de quatro, não quer ouvir gemidos suaves (quase verdadeiros), nem se debruçar sobre um corpo macio depois da descarga cansativa e aliviante. Ele não quer ir ao banheiro se livrar da camisinha, nem ficar abraçado na cama, imerso no cheiro misto de suor e látex. Não quer vê-la se vestindo, nem puxá-la de volta, alegando uma incapacidade qualquer para deixá-la. Ele não quer reiniciar as carícias, e se orgulhar de poder excitá-la novamente.

Quando ela telefonar, ele não vai atender — seja ela quem for! Ele quer a paz de uma cama vazia, o silêncio de um livro antigo, o inapelável cheiro de roupa suja de um quarto de solteiro. Pensamentos vagos vão lhe ocorrer, talvez até lembranças de uma infância descalça e triste, que ele já nem sabe se teve realmente. Um suave arrependimento vai lhe perturbar por algum tempo, depois ele vai expurgá-lo num sonho levemente torturante, como uma música clássica. Aos poucos ele vai se reconciliar com seu corpo, seus quilos a mais, seus cabelos que já começam a escacear sobre a testa.

Mas ela não vai entender. Vai se sentir rejeitada, ultrajada na sua obscura dignidade de fêmea. Vai relembrar um velho namorado, que a amava muito mais, e não a deixava sozinha nos fins de semana. Vai tentar acreditar que quer ligar para esse ex-namorado e marcar um encontro naquele restaurante afastado, perto de um motel. Depois vai pensar que toda a farsa não terá sentido se não for, de alguma forma, descoberta por ele. Então vai ficar algumas horas tentando criar um plano para que tudo — o encontro clandestino, a tarde no motel — chegue ao conhecimento dele e o faça arrepender-se como um mártir desesperado. Mas em pouco tempo ela vai lembrar que não é boa em planejamento, e vai desistir da idéia. Deitada, em frente à televisão, vai sentir seu desejo se diluir como o sal se dilui em água. E os dois vão dormir, cada qual em sua cama, o sono morno de uma noite de outubro.

No outro fim de semana, aí sim, eles vão transar e gozar como rãs patéticas. E esse domingo de ausência será tão insignificante que não restará sequer na lembrança. Sem fotos, sem testemunhas, sem conseqüências, será um nada dentro do vazio, uma gota de chuva caindo num lago, uma sombra encontrando a paz definitiva da escuridão. Até que um dia o corpo dele vai relembrar o desejo de uma cama vazia. Agora casado, ele irá procurar um hotel modesto no centro da cidade. Ela vai relembrar um antigo namorado, vai acreditar que quer dar um telefonema. E tudo se repetirá, com a monotonia infalível dos domingos.

Monday, 29 de October de 2007

Le mot juste

yuri vieira, 4:27 pm
Filed under: especulativas, literatura
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Talvez eu já tenha comentado isso neste blog: durante muitos anos tive ansiedades mil com o tal “mot juste” - a palavra exata - e a conseqüente paranóia de estar sendo demasiado prolixo. Tudo aumentava quando, ao revisar um texto, eu me apercebia de que, em vez de cortar, eu acabava era acrescentando mais palavras e frases, o que apenas intensificava minha culpa estética e a sensação de estar fazendo tudo errado. No entanto, nesses últimos dois anos, enquanto reviso e reinicio loucamente um livro do qual nada ouso comentar, me dei conta do seguinte: ainda na adolescência introjetei tão fortemente esse princípio do Flaubert que, em algum momento que não sei precisar qual foi, passei a escrever apenas esqueletos sem carne. Ou seja, o tal princípio do “mot juste” passou a atuar a priori: meu texto já nasce cortado. Logo, ao iniciar uma revisão, sempre noto que mais falta ajuntar que retirar palavras. Muitas vezes fico chocado com a excessiva concisão que, se mantida, certamente deixaria o leitor perdido. E, por isso, aos poucos vou adicionando a carne, os nervos e a pele. Hoje, sinto-me mais tranqüilo ao ter essa consciência. E todo o problema agora se resume a não deixar o texto gordo demais, a não lhe dar muito de mamar, porque magro ele já nasceu.

Sou um escritor brasileiro com filhos desnutridos. Por enquanto, a maioria tem morrido durante o parto, o que me dá muita pena. Um dia, terei uma família.

Sunday, 28 de October de 2007

Um Deus sem nome

ronaldo brito roque, 7:46 am
Filed under: Cotidiano, Religião, literatura
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Em frente à universidade havia uma pracinha com playground, e Cátia me perguntou se podia levar o Flavinho. Enquanto eu estivesse no debate, ela brincaria com ele na pracinha, depois poderíamos passar no shopping e comer uma pitsa. Imediatamente concluí duas coisas: ela não queria cozinhar naquela noite, e não queria assistir ao debate. A primeira não me incomodava muito, porque uma pitsa seria de fato melhor que a comida requentada de Cátia. Mas a segunda, confesso que me perturbava um pouco. Era um dos debates mais importantes da minha vida, e ela simplesmente não queria estar presente. Se quisesse, poderia deixar Flavinho com uma amiga, ou até com mamãe, que não gosta de perder a novela, porém não chega ao ponto de nos negar um favor desses. Mas ela não estava nem aí. Tenho certeza que ela achava que passar a tarde num playground, com uma criança de seis anos, era mais importante que assistir à minha exposição sobre qual era a religião verdadeira, a única que poderia nos abrir as portas do céu e salvar nossas almas do inferno. Já havia algum tempo que eu estava percebendo que Cátia não ligava para teologia. Para ela, muito mais importante que discutir a natureza das religiões era ter tempo para ficar com Flavinho e dinheiro para comer fora. Isso me decepcionava brutalmente, porque para mim não podia haver coisa mais importante que descobrir qual religião levaria realmente à salvação da alma, e não a uma aparência de salvação que terminasse por nos deixar na mão de satanás. Mas Cátia parecia pensar que a teologia e a filosofia eram simplesmente uma diversão requintada para homens que não sabiam dançar. Essa conclusão ia me decepcionando à medida em que ficava mais nítida; e eu ia procurando mais e mais debates e conferências nos quais as pessoas pelo menos parecessem valorizar meu trabalho.

Mas não havia por que contrariá-la, e concordei com a história de pracinha e pitsa. Segui cabisbaixo para o auditório, na esperança de que pelo menos ali eu encontrasse alguém mais interessado no que eu tinha a dizer. Às vezes eu lamentava o fato de Jesus não ter se casado, e não ter nos legado instrução nenhuma sobre como lidar com as mulheres. Nessas horas me ocorria uma enorme vontade de dar uma olhada no Corão e ver o que Maomé dizia sobre elas — afinal, ele tivera quatro. Mas eu imediatamente afastava essa curiosidade, interpretando-a como tentação infernal.
(Continua…)

Tuesday, 23 de October de 2007

Mirante

ronaldo brito roque, 2:47 pm
Filed under: literatura
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Eles chamam esse lugar de mirante, mas eu confesso que nunca vi nada daqui. A cidade e as estrelas estão sempre encobertas por nuvens, ou distantes demais pr’eu distinguir uma coisa da outra. Eu só vejo os carros parados ao meu lado e seus faróis cortando a neblina. Lígia me disse que já viu até estrela cadente, mas isso bem que pode ser coisa da cabeça dela. Mulher sempre tem uma necessidade de fantasiar, de enxergar alguma coisa mística e melosa onde existe apenas a mecânica previsível da vida na sua repetição morosa e cansativa. Ela, por exemplo, não tem mulher mais previsível. Eu sabia que ela só ia me dar depois que eu falasse em casamento, eu sabia que os boquetes e punhetas seriam só no início, para garantir o compromisso. Depois que ela se sentisse segura, a coisa ia virar um feijão-com-arroz tão maçante que eu só não terminaria porque o comodismo quase sempre acaba falando mais alto que a paixão. O comodismo é lento, mecânico, repetitivo, ele não liga de ficar dez anos fazendo a mesma coisa. Ele nos ganha pela paciência. Quando eu reclamo da Lígia, acho que no fundo estou reclamando é dessa mesmice em que ela acabou me trancando. Casa, faculdade, festa, casa da sogra, casa, faculdade. Todo mundo sempre falando as mesmas frases, rindo das mesmas piadas, reclamando das mesmas coisinhas que eles podiam mudar a qualquer momento, e não mudam porque não querem. Eu sinto que tudo isso veio dela. Se não fosse a sua enorme necessidade de fazer tudo sempre igual, sua ambição convicta por casamento, cachorro e casa de praia, talvez eu estivesse em outro mundo, mais brilhante e gostoso, mais excitante, mais ameaçador, talvez; mas um lugar onde eu certamente me sentiria mais vivo. Quando eu quero transar no estacionamento do shopping, quando eu quero gozar na boca ou nos peitos, quando eu insisto para ela me masturbar no banheiro de uma festa qualquer, acho que no fundo eu quero apenas protestar contra essa mesmice. Quero que ela entenda que não suporto essa rotina. Não quero passar a vida trabalhando para esperar as férias e comendo minha mulher para matar o desejo que eu sinto por outra.

Acho que era nisso que eu pensava naquela noite, quando vi o casal no carro ao lado. Eu buscava alguma coisa que nos libertasse, a mim e à Lígia, dessa vidinha rasa, desse feijão com arroz que além de tudo é sem tempero. Eu reparei que ela também estava olhando para eles e isso me excitou de uma forma inesperada e estranha. Eu fiquei me perguntando se Lígia teria vontade de transar com outro cara, de saber como é o sexo com outro corpo, outro cheiro, outro pau. Por um lado isso me excitava, porque, se fosse verdade, ela pelo menos não seria a garota tão certinha e maçante que eu pensava ser. Haveria na alma dela algum gosto pela transgressão, pelo diferente, pelo novo. Por mais estranho que isso possa parecer, acho que eu ia gostar mais dela se descobrisse isso. Mas por outro lado, não deixo de confessar que senti certo medo. E se ela gostasse de trair? E se começasse a fazer isso com freqüência, relegando nosso namoro a segundo ou terceiro plano? Isso me daria liberdade para trair também, mas eu gostava de transar com Lígia, gostava da sua pele lisa, do seu cheiro forte e acanelado de morena. Não queria perdê-la. Fiquei olhando de soslaio para ela, e vi que ela não tirava o olho do casal. Meu medo e minha excitação aumentavam. O cara já estava tirando a roupa da garota, notei que ela também olhava para mim, não dava para saber se era de vergonha, ou se queria mesmo que eu os visse — talvez isso a excitasse. Tirei também a roupa de Lígia. Ela, sem-graça como sempre, ficou reclamando que alguém poderia ver. Procurei fazer algum barulho para que o casal nos visse. Eles a princípio pareceram não notar, depois a garota falou alguma coisa no ouvido do cara, e ele olhou para o nosso lado. Quando viu Lígia semi-nua, seus olhos brilharam. Lígia é alta, bonita, tem os cabelos longos e lisos que essas meninas pagam muito para ter. Seu rosto afinado e seus olhos pequenos contrastam com uma boca carnuda e bem desenhada. Como se não bastasse, é naturalmente magra, não precisa comprar revistas sobre dieta e malhação. Enfim, uma mulher que meu dinheiro podia pagar (não é hora de falar da importadora de papai, mas sei o quanto isso me ajuda com as mulheres). Senti que o sujeito ficou fascinado ao olhar para ela, seus peitos redondos e brancos refletindo a luz alaranjada de vapor de sódio. Senti também a pontada de ciúme. Olhei para a namorada dele, e ela me encarou com um olhar agressivo, desafiador. O cara, por sua vez, fez um sinal com os punhos fechados, como se dissesse “Fode logo, rapaz. Fode essa menina que eu quero ver”. Olhei para Lígia, ela tinha cruzado as mãos sobre os peitos, estava assustada, mas pressenti certa excitação no jeito fixo com que ela olhava o rapaz. Ele também a olhava, e a namorada dele me encarava com aquele olhar desafiador. De repente percebi o que eu tinha que fazer. Eu sabia que Lígia ia me criticar até o fim, mesmo que ela gostasse, nunca iria admitir. Mas eu estava decidido, não dava para voltar atrás. Além disso no fundo eu sentia que Lígia e eu tínhamos de passar por aquilo de qualquer jeito. Se não fosse daquela vez seria outra. Então que viesse logo, que enfrentássemos o desconhecido que não encontramos na casa da sogra e nas festas de natal.
(Continua…)

Saturday, 20 de October de 2007

Iceman

ronaldo brito roque, 7:36 pm
Filed under: internet, literatura
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Na internet ninguém tem filhos, nem estrias, nem cicatriz de cesariana. Eu também era apenas um nome bonitinho — Iceman —, algo que sugeria vagamente meu desprezo pelo mundo, mas não delatava minha barriguinha, minhas pernas magras e os comprimidos contra calvície. Quando nos encontramos é claro que isso veio à tona, e ela pensou em acabar tudo, pegando meu telefone e prometendo ligar qualquer dia. Mas eu era advogado, tinha um Audi e pagaria sem dificuldade uma pousada em Cabo Frio ou Búzios. Ela costumava sair com jovens bonitos, que esbanjavam cabelo e bíceps, mas eles viviam de pequenas pontas em novelas e eventos, tinham no máximo um Pálio, e não persistiam quando descobriam o garoto. Por isso ela teve uma pequena vertigem quando insisti em pagar a conta. Estava ao mesmo tempo revendo seus conceitos de homem ideal e se perguntando qual seria a melhor hora para falar em Daniel — se antes ou depois da primeira foda. Decidiu que depois era melhor, assim já teria me mostrado aquelas habilidades especiais que ela não aprendera na escola — nem com os pais — e justamente por isso considerava seu poder mais autêntico e confiável. Foi aliás lembrando desse poder que ela encontrou segurança para já falar em como gostava de Cabo Frio e seu mar calmo e esverdeado. Eu, que nunca dei a mínima para praia, afirmei terminantemente que amava Cabo Frio e seu mar calmo e esverdeado. Eu amaria o mar, a areia e até as palmeiras de qualquer lugar se a mulher que me acompanhasse tivesse a delicadeza de me dar, em troca da viagem, o merecido deleite sexual. Ela era jovem e muito bonita — a cicatriz de cesariana era insuspeitável naquele momento — e me parecia que a troca valeira a pena.

De fato valeu. Uma pequena cicatriz não faz diferença nesses momentos, a não ser pela interrogação que suscita. Ela me falou de Daniel, da pertinácia da sua bronquite e do seu desprezo inabalável a tudo que não estivesse diretamente ligado a jogos de computador. Falou das intermináveis horas-extras que ela fez para pagar o cursinho de inglês, enquanto ele matava aula para freqüentar uma lanhouse. Para arrematar, acrescentou que o estado precisava buscar mecanismos mais eficientes de controlar os jovens, antes que eles se tornassem marginais, drogados e pais solteiros. Como toda brasileira, ela achava que qualquer problema devia ser de alguma forma resolvido pelo estado, cabendo aos cidadãos apenas o dever imprescindível de ir à praia e ver televisão.

Não foi difícil perceber que aquele menino era a chave para dominá-la. Se eu me aproximasse do garoto, se o fizesse repetir algumas frases em inglês, se conseguisse convencê-lo da utilidade de ter um maldito diploma, ela se apegaria tanto a mim, desejaria tanto a minha permanência na sua vida, que talvez chegasse até mesmo a sentir algum prazer quando estivesse me chupando. Foi por isso que decidi comprar o playstation no natal; foi por isso que mencionei o fato de os fabricantes de games serem formados numa faculdade chamada “ciência da computação”; e foi ainda por isso que paguei a conta do oculista e os óculos ridículos que davam o contorno definitivo daquela cara de néscio.

E foi assim que eu vivi o delicioso prazer de ter razão. Valéria me amou intensamente, suportou bravamente meus gritos e momentos de cólera, me chupou algumas vezes na sala, quando o rapaz estava trancado no quarto, cantando alguma gordinha pelo msn. Pensei várias vezes em abandoná-la, mas descobri que de vez em quando eu também gostava da sua companhia. Ela era a única namorada de quem eu não precisava esconder as garrafas de Red Label. Ela foi a única que ficou comigo depois que os médicos me explicaram o que era pancreatite aguda.

O menino é que nunca me engoliu. Depois que se formou, arrumou um emprego numa multinacional, e disse que não queria mais nos ver. Explicou que gostava muito da mãe, só que não suportava sua condescendência com meu autoritatismo. Mas de vez em quando ele escreve pedindo algum dinheiro e Valéria se lembra de como ser carinhosa e usar uma lingerie. Acho que somos uma família.

Tuesday, 2 de October de 2007

J. Toledo se despede

yuri vieira, 8:23 pm
Filed under: amigos, escritores, livros, memória, plásticas
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O escritor e artista plástico paulista J. Toledo, com quem costumava conversar ao telefone menos do que deveria, faleceu sábado passado. Eu o conheci quando eu ainda morava com a escritora Hilda Hilst, na Casa do Sol (1998-2000). Naquela época, falávamos quase todas as manhãs. Cheguei inclusive a contribuir com alguns dos verbetes de seu Dicionário de Suicidas Ilustres, editado pela Record. (Ele também publicou livros de crônicas e uma biografia sobre o artista plástico Flávio de Carvalho, a quem conheceu, e que traz um prefácio de Jorge Amado.) Toledo era um amigo extremamente atencioso e tinha um excelente senso de humor. Aliás, como costumo dizer, ele ainda o é e ainda o tem. Está vivo em algum lugar, dando risadas com a Hilda.

Logo mais colocarei em meu podcast uma gravação que fizemos juntos por telefone. Nada de mais, apenas para dar uma idéia de sua personalidade.

Vaya con Dios, hermano!

Tuesday, 25 de September de 2007

O blog do Fernando Meirelles

yuri vieira, 4:27 pm
Filed under: cinema, livros, sites
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O Pedro Novaes me enviou o link do blog Blindness, uma espécie de “diário de viagem” do diretor Fernando Meirelles pelas entranhas da produção de seu filme mais recente, uma adaptação do romance do José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. Em geral, quando leio textos de pretensos diretores de cinema, me lembro daquela sentença do Fernando Pessoa na boca de Bernardo Soares: “Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa”. Aqui, Pessoa se referia a um livro sobre ocultismo pessimamente escrito. Mas fico particularmente irritado quando alguém tenta dominar o diabo da técnica cinematográfica sem antes dominar a escrita. O Fernando Meirelles prova que não é um desses: o cara manda bem.

Para quem tem interesse nos bastidores de uma produção cinematográfica, para quem trabalha ou quer trabalhar com cinema, o blog é uma mão na roda. Aliás, uma amiga que trabalhou durante dois anos na produtora O2 me disse que, lá, o Meirelles é visto como uma espécie de guru interno. Já um de seus sócios, segundo ela, é o mauzão da área. (Parece que as demais sócias são mulheres.) Ao fim e ao cabo, os caras são espertos e sabem que não são apenas as duplas policiais que devem ter um cara que bate e um que fala manso. Cinema também é diligência.

Com relação a diretores que sabem escrever, sugiro ainda os livros/textos de Andrei Tarkovsky, Andrzej Wajda, Glauber Rocha e François Truffaut.

Thursday, 20 de September de 2007

Provincianismo

yuri vieira, 2:16 pm
Filed under: escritores, literatura
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Do blog do Martim Vasques:

Segundo T.S. Eliot, ser “provinciano” não significa “não possuir a cultura ou o requinte da capital”, muito menos ser “estreito no pensamento, na cultura e no credo”. É algo além – e muito mais trágico para a cultura de uma nação que se pretenda saudável. Refere-se “também a uma distorção de valores, à exclusão de alguns, ao exagero de outros, que resulta, não de uma falta de ampla circunscrição geográfica, mas da aplicação de padrões adquiridos dentro de uma área restrita, para a totalidade da experiência humana, que confundem o contingente com o essencial, o efêmero com o permanente. Em nossa época, quando os homens parecem mais do que propensos a confundir sabedoria com conhecimento, e conhecimento com informação, e a tentar resolver problemas da vida em termos de engenharia, começa a emergir na existência uma nova espécie de provincianismo que talvez mereça um novo nome. É um provincianismo, não de espaço, mas de tempo, aquele para o qual a história é simplesmente a crônica dos projetos humanos que têm estado a serviço de suas reviravoltas e que foram reduzidos à sucata, aquele para o qual o mundo constitui a propriedade exclusiva dos vivos, a propriedade da qual os mortos não partilham. A ameaça dessa espécie de provincianismo é que podemos todos, todos os povos do mundo, ser provincianos juntos; e aqueles que não estiverem satisfeitos podem apenas tornar-se eremitas” (ELIOT, T.S. “O que é um clássico”, in: De Poesia e Poetas, págs. 96-97).

Monday, 10 de September de 2007

Joana D´arc

daniel christino, 11:59 pm
Filed under: escritores, literatura, livros
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Joana D´arc - Jules Michelet

Quem estiver com o tempo livre e com algum sobrando eu gostaria de indicar um livro. Não porque a personagem é uma das principais figuras da história francesa, nem porque fui eu quem escreveu a introdução. Indico porque é uma boa leitura e uma excelente oportunidade de penetrar no universo do genial Michelet.

Até mesmo seus exageros são extraordinários. Michelet é o primeiro historiador a desenvolver um método de compreensão da história a partir do modo de vida das pessoas, buscando a ressurreição total de uma época na compreensão de fatos ou personagens até então desconsiderados pela historiografia clássica. A edição é muito bem cuidada, a tradução é excelente e a introdução não comete nenhum grande pecado. Leiam.



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