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Friday, 13 de April de 2007

Borat e o primeiro filme de Carlitos

yuri vieira, 1:51 am
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Algo me fez sentir que o maluco sem-noção do Borat é uma espécie de Carlitos do século XXI. Eu sei que certas situações criadas por ele - no filme Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan - causam mais constrangimento que risos. Mas, vários dias após assistir a seu longa-metragem, é impossível parar de pensar no cara. E de dar risadas com as lembranças. Alguém pode afirmar que o personagem é um amoral idiota (de fato, segundo Aristóteles, a personagem da comédia está sempre fora da virtude) e que Sacha Baron Cohen, seu criador e intérprete (um cara nascido exatamente 11 dias antes de mim), não passa de um imoral filho-da-mãe. Pouco importa, as gargalhadas são garantidas. A questão é que ele simplesmente levou ao extremo a mesma idéia de Chaplin ao criar seu famoso personagem, o Carlitos. Como Borat, o primeiro filme em que Chaplin interpretou o Vagabundo não era senão uma pegadinha.

Chaplin foi com o diretor Henry Lehrman até uma corrida de carros sem motor - carros impulsionados pela força da gravidade ao descer uma rampa - e ali fez, como diria a turma do Pânico na TV, o papel de Robert. Enquanto o próprio diretor do curta-metragem finge que só quer filmar a corrida dos garotos (Kid Auto Races at Venice), o vagabundo fica invadindo a cena, tentando aparecer. O público da corrida obviamente nunca vira aquele doido antes e, por isso, não percebe que se trata de algo combinado. É ótimo ver a reação das pessoas na tela grande, suas expressões de espanto diante do maluco exibido. Pena que no You Tube não se vê as tais tão nitidamente. Mas tá valendo. (Veja abaixo.)

Quanto a essa gente que insiste em dizer que Borat expõe a babaquice dos americanos, me desculpe: os babacas que aparecem no filme são os mesmos babacas de qualquer canto do mundo. Mesmo assim, a maioria dos americanos com quem ele interage são tolerantes e amigáveis ao extremo. Tudo bem, a polícia foi chamada 91 vezes durante as filmagens para dar um jeito no cara. Mas pense bem: fazendo o que ele faz, em outros países teria sido apedrejado, enforcado, linchado, esquartejado, etc., etc. Mas Borat é como Carlitos. Por mais escroto que seja, o personagem continua com sua aura de inocência. Pena que o sacana do Sacha Baron Cohen tenha necessitado sacanear tanta gente para atingir o efeito desejado. (Eu tenho mania de sentir pena das vítimas do humor. Das vítimas alheias mais exatamente, já que alguns dos meus contos foram o estopim para que alguns leitores também me tachassem de cruel. Mas, enfim…) Pelo que me lembro da autobiografia do Chaplin, descontando Hitler, e após seus primeiros filmes como Carlitos, ele se limitou a sacanear pessoas reais apenas pelos bastidores, fora do olhar das câmeras. Principalmente as mulheres…

Tuesday, 10 de April de 2007

Figurantes para curta-metragem

yuri vieira, 3:12 am
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Amigos
Dia 16/04, segunda-feira próxima, eu e a Cássia iremos rodar o curta-metragem “Espelho”, cujo roteiro escrevi. A locação será o Cine Pireneus, em Pirenópolis-GO, um antigo teatro que se tornou cinema nos anos 1930. (A mesma sala que aparece no filme Dois filhos de Francisco.) Precisaremos de cerca de 150 figurantes para interpretar o complexo papel de público. Os interessados devem se apresentar logo pela manhã - muito embora, no correr do dia, muita gente irá certamente se cansar, cair fora e abrir novas vagas para outros figurantes. (Tô cansado de saber que só Hollywood consegue segurar a figuração horas e dias a fio.)

Estamos com uma equipe muito bacana, tanto os atores, quanto a produção e os técnicos. Se Deus quiser, tudo sairá super bem. (Em outra oportunidade, colocarei aqui a ficha técnica.)

Vale lembrar que Pedro Novaes, nosso companheiro de blog, interpretará o “vilão” da história, o gatilho mais rápido do centro-oeste… :)

É isso. Conto com a presença dos amigos e empolgados em geral. (Aconselho aos agentes da Kaos a não aparecerem. Uma turma do Controle irá monitorar e fazer a segurança do set.)
Abraços!

P.S.1: Comunidade do curta no Orkut.
P.S.2: Agora sai, Nelson Pereira!!

Tuesday, 3 de April de 2007

Ó Paí Ó

pedro novaes, 2:18 pm
Filed under: cinema
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Cartaz

O melhor musical já feito no Brasil. Belíssimo filme.

“Ó Paí, Ó” é divertidíssimo, tecnicamente perfeito e recheado de grandes interpretações, especialmente Lázaro Ramos e Wagner Moura. Baseado numa peça originalmente encenada pelo Bando de Teatro Olodum, o roteiro, apesar dos múltiplos personagens que acompanha, é muito bem amarrado.

E não me venham com mau humor sobre estereótipos sociais e sobre glamourização da pobreza. É um filme, conforme me disse essa manhã o João Paulo Carvalho, montador, quando liguei para lhe dar os parabéns, “para virar uma espécie de ‘A Ratoeira’ de Salvador”, em referência à peça de Agatha Christie em cartaz a décadas em Londres porque se tornou uma atração turística. “Ó Paí, Ó” merece uma sala permanente no Pelourinho.

Mesmo quem não gosta de Carnaval e Axé tem que ser muito chato pra não se deixar contagiar.

Wednesday, 28 de March de 2007

Tudo Verdade?

pedro novaes, 3:51 pm
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Amanhã, em São Paulo, a grande atração do É tudo Verdade, um dos mais conceituados festivais internacionais de documentários, é o filme “Fabricando Polêmica”, dos cineastas Rick Caine e Debbie Melnyk - ele, canadense, ela, americana.

O filme é uma crítica pesada a Michael Moore e à sua maneira de fazer documentários. O que o torna ainda mais interessante é o fato de que os dois diretores se definem como sendo de esquerda. Abaixo, a íntegra da matéria de hoje da Folha sobre o filme:

TIROS EM MICHAEL MOORE

“Fabricando Polêmica”, que passa amanhã em SP, aponta manipulações nos filmes do diretor americano

LUCAS NEVES
DA REPORTAGEM LOCAL

Porta-voz dos sindicalistas em “Roger e Eu”, pacifista em “Tiros de Columbine” e democrata de carteirinha em “Fahrenheit 11/9″, Michael Moore seria também ficcionista diletante? É essa a pergunta que levanta o casal de cineastas Rick Caine e Debbie Melnyk (ele, americano; ela, canadense; ambos de esquerda, o que dá um sabor especial à tentativa de desmontar o “mito” Moore) no documentário “Fabricando Polêmica”. Ali, questionam os métodos do cineasta e elencam distorções e “aproximações da verdade” de que ele se vale para fundamentar teses inflamadas.
Programado para amanhã, às 19h, no Cinesesc, em São Paulo, e exibido hoje no Rio (18h, CCBB), dentro do cardápio do festival É Tudo Verdade, o filme foi concebido como um tributo ao polêmico diretor. “Éramos fãs dele. Achávamos os seus filmes ótimos”, disse Caine à Folha, em entrevista por telefone. “E somos gratos a ele, por fazer com que as pessoas fossem ver documentários”, observou Melnyk.

(Continua…)

Monday, 26 de March de 2007

Iluminado e fofo

yuri vieira (SSi), 12:55 am
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Alguém aí já assistiu a essa “comédia” fofa?


Monday, 19 de March de 2007

“O papel é uma prisão!”

E por falar em ambientes 3D na internet, também merece ser lida a entrevista da revista Época #461 (também por Eduardo Vieira) com Theodor Nelson, criador dos conceitos de hipertexto e hiperlink ainda nos anos 1960, e atualmente professor em Oxford. O mau humor dele para com os ambientes 2D chega a ser engraçado. O cara odeia interfaces que copiam o formato do papel. E diz que seu conceito de hiperlink, esboçado no sistema Xanadu, já previa o uso duma interface tridimensional. Veja este trecho:

(…)
Época - Seu sistema de hipertexto criado nos anos 60, o Xanadu, não pegou como o padrão para os links da internet. Esse ódio não é um ressentimento pelo fracasso?
Nelson - Pode até ser. Eu não me importo. Só acho que poderiam ter feito a web de forma mais inovadora. Tudo é muito copiado. Hoje, as pessoas falam em blogs, wikis, redes sociais online. Não são idéias originais, são coisas de que já se falava nos anos 60. Publicar um diário é a coisa mais velha do mundo. E qual é a diferença entre um blog e um site? O blog rola mais para baixo? A colaboração dos wikis também não é algo novo. A novidade é que alguém o aplicou. E o MySpace? Sinceramente, não entendo o que é aquilo. Acho que preciso me tornar adolescente de novo, ter 50 anos a menos, para saber por que acham aquilo interessante. Entrei no MySpace. E me senti noutro planeta, e saí. As pessoas confundem inovação com o conceito de cópia melhorada. Quando não copiam, acham que inovação é caos. Inovação é ruptura. E nada disso é um rompimento.

Época - Antes, as pessoas não viviam em rede como hoje. Isso não é uma ruptura?
Nelson - Isso não é uma inovação. É uma conseqüência de as pessoas estarem mais conectadas. Inovação tem a ver com forma, e as pessoas não conseguem fugir do retângulo nunca. O livro é um retângulo, o papel é um retângulo, a tela do computador é um retângulo. Agora, há iniciativas de papel digital, de criar pranchetas eletrônicas para ler. É provavelmente a idéia mais estúpida que já ouvi. É um retângulo, de novo. Saiam dos retângulos! Por que tudo tem de estar em linha reta, ter um visual quadrado? O papel é uma prisão. A maior prisão da humanidade. A Microsoft imita o papel, a Apple imita o papel. Por quê?

Época - A Apple imita o papel?
Nelson - Sim! O papel é uma tradição que precisa ser quebrada. Tanto o papel em si como o formato que ele representa. Os formatos de documentos não evoluíram. A web é uma simulação do papel, um retângulo que parece uma revista. Ficamos imitando padrões. Não estou falando de tecnologia. Estou falando quase de uma religião. Sou um evangelista, tenho uma maneira diferente de pensar. Qual é a diferença entre o Windows e o Macintosh? Nenhuma. E entre um computador Apple e um da Dell? São idênticos. Duas coisas iguais empacotadas de modos diferentes. Por que a Apple faz tanto sucesso? Porque Steve Jobs tem mais bom gosto que Bill Gates. Só isso. Ele deveria ser diretor de cinema.

(…)

É como se a internet visualizada por ele pudesse derrubar tudo o que veio antes. Ele parece não perceber (ao menos de acordo com a entrevista) que as interfaces caminham de acordo com a capacidade de processamento e transmissão de dados, de acordo com o potencial do hardware. A única crítica que ele faz ao Second Life é que o programa deveria ter gráficos melhores. Mas os computadores de hoje ainda não comportam tanta informação! Imagine ir a um Maracanã virtual com 100 mil avatares na arquibancada. Isso é possível, mas meu pobre laptop não suportaria. Mas ainda vamos chegar lá.

Quanto ao formato retangular, nada o impede de lançar um livro circular. O problema verdadeiro é a palavra escrita, que desde sempre é bidimensional. Não há nenhum código capaz de portar tanta informação quanto a palavra. A única exceção, conforme já escrevi aqui e aqui, são os ideogramas chineses. Que também pouco se incomodam se estão sendo inscritos numa superfície quadrada, circular, oval, etc. É provável que essa provável “escrita 3D” idealizada por ele não exista no planeta ainda. Até os cegos lêem em pontos dispostos em duas dimensões. Não dá pra fugir da palavra. A não ser dando um passo para trás e criando uma interface que não apenas apresente ambientes 3d mas que também atenda à fala. Trê dimensões espaciais e uma temporal, já que a palavra se dá no tempo. Um ambiente 4D, ou seja, o nosso próprio ambiente transposto ao computador. Com a diferença de que os objetos e o ambiente circundante obedeceriam à nossa vontade. Isto tudo foi comentado por Walter Benjamin: algumas idéias, quando se expressam prematuramente, parecem monstruosidades. E ele cita os dadaístas, que faziam uma confusão de colagens, uma mistura de letras e artes plásticas que não fazia outra coisa senão atordoar as pessoas. E um dia eles perceberam, na pessoa de Charles Chaplin, que o verdadeiro veículo para sua arte era o cinema, que era tudo isso - imagem, colagem, desenho, fotografia, música, palavra - mas disposto de modo harmônico. Chaplin, para os cabeças do movimento, realizou o sonho dadaísta.

Esse Ted Nelson deve ter nascido antes do tempo mesmo.

Monday, 12 de March de 2007

A Resistência do Vinil

yuri vieira, 8:59 am
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E por falar no making of da Mostra Curtas, quero tocar rapidamente no nome do nosso amigo Eduardo Castro, autor das imagens do dito cujo e diretor do divertidíssimo documentário A Resistência do Vinil. Foi ótimo dirigir o Eduardo. Tudo o que eu tinha a fazer era interromper a conversa que ele estava tendo com alguém, em geral comigo mesmo, e lhe pedir para gravar. O resto era praticamente automático. Daí o apelido “piloto automático” e tal. :) Aliás, logo logo o cara vai arrebentar com um documentário bomba que está montando - com dez anos de imagens e entrevistas gravadas (em VHS, miniDV e HDV) - sobre a Guerrilha do Araguaia.

Segue abaixo A Resistência do Vinil, em duas partes de 10 minutos cada. (Tem um bobo lá dizendo que o capitalismo é culpado pelo “fim” do vinil. O problema é que ele adquire seus discos velhos em lojas/sebos, isto é, no mercado. Cada um…)

Segunda parte: (Continua…)

Sunday, 11 de March de 2007

Goiânia Mostra Curtas - making of

Eis o making of, que dirigi, da 6a. Goiânia Mostra Curtas, mais conhecido entre nós como “Onde está o Paulo Paiva?”, hehehe.

Vale lembrar que a cena onde Paulo César Peréio aparece com o dedo em riste foi excluída por motivos bastante claros - bastante claros para quem viu em que trecho tal cena aparecia…

Gosto muito da entrevista com o Juliano Moraes, durante os créditos finais. :)

Mais detalhes, logo abaixo do vídeo.

Making of da sexta edição da Goiânia Mostra Curtas - que inclui a 5.a Mostrinha (infantil) e a Mostra Cinema nos Bairros (exibições ao ar livre) - ocorrida entre 10 e 15 de Outubro de 2006, sob coordenação de Maria Abdala (ICUMAM). O tema da mostra foi o cinema experimental, tendo contado com as presenças de Edgar Navarro, Joel Pizzini, Jomard Muniz de Britto, Christian Saghaard e José Eduardo Belmonte. Estes dois últimos, juntamente com o compositor André Abujamra, foram os responsáveis pelas oficinas de Cinema Experimental, Direção Cinematográfica e Música para cinema, respectivamente. Dos 590 curtas-metragens inscritos, 127 foram selecionados e distribuídos em 5 mostras competitivas. Além destes, foram exibidos 19 filmes convidados dentro da mostra Cinema Experimental. A direção do making of e as entrevistas são de Yuri Vieira, com imagens de Eduardo Castro, produção de Paulo Paiva e Cássia Queiroz, e edição de Aline Nóbrega, pela Cora Filmes. A produção executiva é de Pedro Novaes.

Saturday, 10 de March de 2007

Sentando no próprio rabo

Eu não vi o filme do Al Gore e nem quero ver, mas não me confundam com o Paulo Paiva que não acredita no papel humano nas mudanças climáticas, etc. e tal. Acho os ecologistas em geral chatos e chorões, além de herdeiros da tradição política da esquerda, que acha que são as idéias quem define as pessoas e que quem não está do nosso lado está contra nós. Fodam-se.

Mas eu também acho um pé no saco esse escárnio de quem não leu, não viu e não sabe do que se trata e fica com risadinhas, como se falar no efeito das ações humanas sobre o meio ambiente e nas relações entre economia e ecologia ainda fosse realmente coisa de hippie. Tá certo. Então o Nick Stern, o Amartya Sen, o José Eli da Veiga e Miriam Leitão são companheiros em armas de guerrilha e ficam fumando maconha e viajando nessas coisas, né?

Aí eu tava escrevedo outro dia um post sobre a relação entre ciência e política, tendo como base o aquecimento global, pra brigar com o Paulo e depois me deu uma preguiça danada e ele está aqui meio parado, porque eu entrei numa de citações e comecei a estudar e achei tudo isso muito ridículo.

Aí eu vejo um texto como esse no Mídia sem Máscara e me lembro de um texto do Alexandre Soares Silva (não sei cadê, mas procura aí que cê acha nos posts antigos) em que ele dizia que sempre que ouvia alguém falar que não era nem de esquerda, nem de direita, dava um nervoso e ele ficava olhando pros pés da pessoa com medo de que ela fosse começar a sambar.

O Paulo já tinha me falado dessa bobagem da casa do Al Gore ter um consumo imenso de energia e de se configurar em uma hipocrisia muito grande ele viver assim e vir falar do aquecimento global. Eu dei uma risadinha e perguntei se ia chover porque não estava fim de falar dessas coisas. O argumento do texto é bem bobinho. Levado ao limite, ele significa que nenhum de nós, exceto talvez um asceta nas montanhas tibetanas, pode fazer crítica a coisa alguma, porque afinal nosso telhado é sempre de vidro, ou não? Aliás, não há nada que distingua mais a tal da modernidade do que esta separação entre discurso e prática, ou não? Todos os dias, inúmeras vezes, a maioria delas sem que nos demos conta, pregamos coisas que não praticamos ou fazemos coisas que vão contra valores que nós mesmos defendemos.

Eu mesmo, e não apenas o Al Gore, temos modos de vida profundamente insustentáveis em termos ambientais, começando por coisas básicas: entre outras coisas, não separo o lixo do meu lar e trabalho a maior parte do dia em uma ilha de edição com ar condicionado a 19°C gastando preciosos kilowatts de energia produzidos no Brasil num mix que inclui termelétricas a gás, gerando gases estufa, hidrelétricas, alterando radicalmente grandes ecossistemas e emitindo gases estufa, e nuclear, ao risco que brincar com a radioatividade impõe. São apenas singelos exemplos.

Tudo bem. É evidente que o seu Al Gore tem mais responsabilidade que nós pela posição que ocupa e blábláblá. Mas realmente o que me surpreenderia seria ele ter uma casa parecida com um cupinzeiro, construída de adobe, usando técnicas de permacultura, com condicionamento de ar natural, usando técnicas herdadas dos povos pré-colombianos em suas pirâmides, aquecida por células de hidrogênio no inverno e movida a energia solar.

No limite, segundo o raciocínio de Eduardo Ferreyra, ninguém pode falar nada. Sentamos no próprio rabo o tempo todo. Criticazinha besta. Me dá raiva até de ler e gastar minha manhã de sábado escrevendo isso, quando tenho outro post mais engraçado e menos sérião pra fazer. Devo ser tão chatinho quanto esse Eduardo Ferreyra que nem sei quem é.

O Mídia Sem Máscara costuma publicar textos bem melhores.

Saco.

Wednesday, 7 de March de 2007

O hippie reacionário

yuri vieira, 4:46 pm
Filed under: Cotidiano, Política, Religião, cinema, livros
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Eu sempre dou muita risada ao ver o Erik Cartman, o gordinho do South Park, xingando alguém de hippie. (Isso sempre me lembra uma ex-namorada que, ao passear por feiras de artesanato, costumava reclamar: “ai, que cheiro de hippie”.) O que eu nunca imaginei é que alguém chegaria um dia a me chamar - sim, a mim, limpinho e cheiroso - de “hippie reacionário”. Pois é, isso rolou.

Como roteirista, fui apresentado a uma figura que pretende dirigir uma adaptação livre para cinema do Fausto, de Goethe. Conversamos por algum tempo sobre o livro e, ao tratarmos do final, ela me deixou claro que não quer nada semelhante a uma “redenção” do protagonista, que o cara tem é de se foder de modo absoluto, como na “vida real”. “Então não é Fausto”, eu disse. E ela me respondeu que, “como marxista”, não acredita nessas bobagens tipo “redenção”, “culpa cristã”, “alma imortal”, “pecado” e coisas do gênero. Eu ri, claro. E discordei. Pra quê… Iniciou-se um daqueles debates infrutíferos, nos quais falamos com as paredes. (Imagino que isso tem a ver com a mania dos dirigentes marxistas de acabar com as discussões no paredão.) Coletivo pra lá, indivíduo pra cá, eternidade pra cá, História pra lá e assim por diante. Eu a compreendia, juro, mas a recíproca não parecia verdadeira - ela estava indignada! A figura, para completar, ainda é professora voluntária de literatura num acampamento do MST, onde, apesar da eterna desconfiança que os sem-terra mantêm para com pessoas de fora do movimento, e a despeito das “origens burguesas” dela, esforçam-se por aceitá-la. E ela entoava isso como se o fato de ter nascido numa família classe-média fosse… um pecado! Ficou muito claro que, em meio deles, ela se vê tão deslocada quanto uma menina pobre entre as patricinhas de Beverly Hills. E, tal como essa hipotética menina, “sabe” que a culpa dessa, digamos, ausência de comunhão é apenas dela, uma mera aprendiz de revolucionária que se põe feliz como um cachorrinho cada vez que um camponês (isto é, um pobre! um proletário! um membro real do povo!) lhe dá atenção. Mas o mais incrível mesmo era vê-la defender aquela gente que, em vista de seu próprio depoimento, jamais colocaria a mão no fogo por uma “burguesa”. Afinal, ela faz parte da classe injusta e eles, da classe dos justos, uma turma que, antes das sete da manhã, se reune para berrar slogans revolucionários e dar gritos de guerra. (Segundo o documentário do João Salles, até o Lula ficou amedrontado ao presenciar isso.)

Conversa vai, conversa vem, insisti num final com a redenção de Fausto. Ela achava isso “ultrapassado” (!!), como se algo que dependesse da eternidade fosse condicionado pelo tempo. Mas explicar isto era inútil. “Ora”, repliquei, “até o Pulp Fiction do moderníssimo Tarantino, um filme de 1994, tem redenção e, de lá pra cá, ainda não conseguiram, nem mesmo o próprio Tarantino, rodar uma tragicomédia que fosse além desta, tanto em forma quanto em conteúdo”. E passei a descrever o início da conversão de Jules, capanga do Marsellus, que acreditava piamente não ter sido baleado graças a um milagre divino. E entrei, pois, a discorrer sobre fé, demostrando que a redenção de Jules foi comprovada por sua atitude corajosa e ponderada na parte final do filme.

Ela arregalou os olhos: “Yuri, você é um dos caras mais loucos que já conheci!”

“Ah, é? E por quê?”

“Cara, você é um hippie reacionário!!”

“Um hippie reacionário?!”, e desatei a rir. “Como assim?”

“Bom, segundo me disseram, você não tem onde cair morto, tá desempregado, não é mais empresário, vive de bicos “artístico-culturais”, seu pai é aposentado (ou seja, não é rico), você não tem diploma, nem sequer tem dinheiro pra ir ao cinema e tomar um chope… Você é praticamente um hippie, cara! Só que cheio de idéias anti-progressistas, conservadoras, capitalistas, liberais, religiosas, enfim, um autêntico reacionário.”

De fato, diante dela, eu era um escândalo a abalar sua fé marxista. Como era possível existir alguém cujas idéias e princípios não representavam a ideologia de sua suposta classe social? Se ela estivesse em meu lugar, certamente já teria se mudado para um acampamento do MST. Ela me encarava embasbacada. Não conseguia engolir o fato de que, se eu estava na merda financeira, isto se dava simplesmente por incapacidade e incompetência minhas - aliadas, é claro, à rapinagem e corrupção estatais (meu estúdio quebrou por ação da “máfia dos fiscais” de São Paulo) - e não por culpa dos “ianques”, dos “capitalistas exploradores” e dos “banqueiros bandidos”. Já eu não parava de pensar que “hippie reacionário” teria sido um ótimo nome para este blog…

Sunday, 25 de February de 2007

Pecados Íntimos Derrapa e quase Capota

pedro novaes, 5:55 pm
Filed under: cinema
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Pecados

“Naquele momento, Larry se deu conta de que o passado não pode ser modificado, mas o futuro, esse sim, poderia ser diferente. E a construção desse futuro distinto deveria começar naquele instante. Ele podia salvar uma vida.”

Com essa frase, ou algo muito semelhente, dita em off pelo narrador, o roteirista e diretor Todd Field quase destrói o excelente filme “Pecados Íntimos”, título este em português que aliás não faz jus ao muito melhor “Little Children” (“Criancinhas”) original em inglês. O filme é candidato aos prêmios de melhor ator coadjuvante (Jackie Earle Haley excelente no papel do pedófilo Ronnie), melhor atriz, com Kate Winslett, também em ótima atuação, e melhor roteiro adaptado, na cerimônia do Oscar hoje à noite. Aparentemente tem alguma chance no primeiro, embora Eddie Murphy seja franco favorito, chances remotíssimas no segundo, onde Hellen Mirren é quase barbada, e escassas no terceiro, onde a concorrência de “Os Infiltrados” é forte.

O uso do off, ou “voice over”, para empregar com precisão a terminologia cinematográfica, é evidentemente objeto de muita crítica. Via de regra, torna-se uma muleta para coisas que o cineasta não consegue passar através de imagens ou com naturalidade nos diálogos dos personagens. Além de denotar certa incapacidade do diretor e do roteirista, o voice over em geral implica na explicitação de pontos de vista, emoções, fatos ou “mensagens” que deveriam ser transmitidos de forma sutil ou ser subentendidos pelo espectador, sob pena do filme tornar-se didático e/ou de se tratar com estupidez e superficialidade as emoções e o raciocínio do próprio espectador.

O roteiro de “Pecados Íntimos” é pontuado em muitos momentos por observações de um narrador em terceira pessoa, a princípio até interessantes – porque complementam ao invés de substituir, como em “Dogville” e “Manderlay” do dinamarquês Lars Von Trier. Mas o escorregão no final é violento.

O filme conta a história de Sarah (Kate Winslett), Brad (Patrick Wilson) e Ronnie (Jackie Earle Haley). Os dois primeiros, oprimidos pelos casamentos e pela paternidade, têm os filhos como desculpa para se conhecerem e eventualmente se tornarem amantes. Ronnie é um condenado por molestar sexualmente crianças que, solto em liberdade condicional, passa a residir com a mãe na mesma comunidade dos subúrbios de Boston. A vida dos três se entrelaça de maneira inesperada, ressaltando a imaturidade emocional como motivador das ações não apenas deles, mas de quase todos os personagens envolvidos. Criancinhas.

O roteiro é excelente e, o tempo todo, não sente pena dos personagens, resultando em um filme forte e incômodo. Todd Field só se perde no final, quando deixa vazar seu pendor para o melodrama americano. Depois de conduzir o filme de forma impecável e cheia de surpresas até minutos antes do fim, ele não se contém e produz uma pequena epifania individual para Larry, o personagem de Noah Emmerich, que culmina com a frase citada no início do post, através da qual evidentemente ficam todos os personagens redimidos de seus pecados.

O final como um todo é discutível. Moralista? Talvez. Seguramente um pouco melodramático demais.

De toda maneira, não chega a comprometer o todo. Vale à pena assitir.

Saturday, 24 de February de 2007

Chutes (11 erros, 10 acertos)

rodrigo fiume, 11:52 pm
Filed under: cinema
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FILME:

  • — Babel*
  • —— Os Infiltrados*——
  • Cartas de Iwo Jima*
  • Pequena Miss Sunshine*
  • A Rainha*

DIRETOR:

  • Alejandro Iñárritu – Babel*
  • — Martin Scorsese - Os Infiltrados*
  • Clint Eastwood - Cartas de Iwo Jima*
  • Stephen Frears - A Rainha*
  • Paul Greengrass - Vôo United 93

ATOR:

  • Leonardo Dicaprio - Diamante de Sangue
  • Ryan Gosling - Half Nelson
  • Peter O’Toole - Vênus
  • Will Smith - Em Busca da Felicidade
  • — Forest Whitaker - O Último Rei da Escócia

ATOR COADJUVANTE:

  • ——Alan Arkin - Pequena Miss Sunshine* ——
  • Jackie Earle Haley - Pecados Íntimos
  • Djimon Hounsou - Diamante de Sangue
  • — Eddie Murphy - Dreamgirls
  • Mark Wahlberg - Os Infiltrados*

ATRIZ:

  • Penélope Cruz – Volver*
  • Judi Dench - Notas Sobre Um Escândalo
  • — Helen Mirren - A Rainha*
  • Meryl Streep - O Diabo Veste Prada*
  • Kate Winslet - Pecados Íntimos

ATRIZ COADJUVANTE:

  • Adriana Barraza – Babel*
  • Cate Blanchett - Notas Sobre Um Escândalo
  • Abigail Breslin - Pequena Miss Sunshine*
  • — Jennifer Hudson - Dreamgirls
  • Rinko Kikuchi – Babel*

LONGA DE ANIMAÇÃO:

  • — Carros
  • ——Happy Feet - O Pingüim——
  • A Casa Monstro*

DOCUMENTÁRIO: (Continua…)

Friday, 23 de February de 2007

Submissão

yuri vieira, 3:41 pm
Filed under: Podcast e videos, Política, Religião, cinema
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Este curta-metragem, que denuncia a opressão sofrida pela mulher sob o islamismo - com roteiro da deputada liberal holandesa Ayaan Hirsi Ali, de origem somali e ameaçada de morte -, custou a vida do cineasta Theo van Gogh.

Thursday, 22 de February de 2007

A Rainha

rodrigo fiume, 2:34 am
Filed under: cinema
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a-rainha.jpgNão é bem um filme ruim. A recriação dos acontecimentos em A Rainha, de Stephen Frears, é bastante convincente. Parece até um documentário.

E Hellen Mirren como a Elisabeth II está mesmo perfeita. Tem tudo para juntar o Oscar à gama de prêmios que já recebeu pelo papel — no total, o filme teve 6 indicações: filme, diretor, roteiro original, figurino e trilha sonora original.

A Rainha retrata a comoção popular causada pela morte da princesa Diana, a relutância da família real em segui-la e o esforço oportunista do primeiro-ministro Tony Blair em consertar as coisas. O fato é que, por trás da frieza real atribuída à posição, o sentimento de Elisabeth é bem claro: Diana não era querida.

O “embate” entre o novo, representado pelo recém empossado Blair, e o velho, a milenar monarquia, confere certa diversão ao filme. Mas, pessoalmente falando, não vi tanta graça no todo. É uma situação que interessa mais aos britânicos ou aos que ainda prezam a monarquia nos dias de hoje.

Wednesday, 21 de February de 2007

O Labirinto do Fauno

rodrigo fiume, 2:03 am
Filed under: cinema
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labirinto-do-fauno-poster11t.jpgBelo filme. Embora se apóie em contos de fada, não é um filme infantil. É pesado, rude, violento.

Mãe e sua filha se mudam para uma área de conflitos na Espanha, durante a guerra civil. A mulher está grávida do comandante militar encarregado de extinguir os rebeldes. Na mansão, a menina descobre um labirinto de pedras.

O Labirinto do Fauno, do mexicano Guillermo del Toro, tem uma trama criativa. Os atores são muitos bons e o visual é bonito. Recebeu 6 indicações ao Oscar: filme estrangeiro, roteiro original, trilha sonora original, fotografia, direção de arte e maquiagem.

Na verdade, o filme trata da crueldade humana. Mostra-a sem concessões. E quando a realidade é o inferno, resta a fantasia.

Saturday, 17 de February de 2007

O DC-6 do John Wayne

yuri vieira, 5:59 pm
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Dia 28 de fevereiro será reprisado, no Telecine Cult, o filme Um fio de esperança (The High and the Mighty) (1954), protagonizado por John Wayne. Trata-se, salvo engano, do primeiro filme a explorar o drama de passageiros e tripulação de um vôo comercial em pane. Ou seja: é o avô da série de filmes Aeroporto dos anos 70, que, nos anos 80, desembocou em Apertem os cintos o piloto sumiu. Bom, minha intenção não é tratar exatamente do filme, mas sim do avião Douglas DC-6 utilizado nas filmagens.

Esse avião foi comprado em 1957 por uma das maiores empresas brasileiras de aviação à época, a Lóide Aéreo Nacional, da qual meu pai foi funcionário. Em 1961, o presidente Jânio Quadros foi informado de que o coronel Marcílio Gibson Jacques - veterano da Segunda Guerra e um dos proprietários da Lóide - estava contrabandeando motocicletas para o Brasil em caixas que supostamente traziam peças de avião. Filmes como O Selvagem, com Marlon Brando, haviam alavancado o interesse por motos, mas os impostos cobrados pelo governo brasileiro tornavam a compra desse sonho de consumo mais sonho que consumo. Jânio Quadros fez então aquilo que nossos políticos chamam de política, a saber, colocou o coronel Gibson contra a parede: ou ele vendia por uma quantia irrisória a Lóide Aéreo para a Vasp (uma autarquia do governo paulista) ou iria para a prisão por contrabando. Assim, neste mesmo ano, a Vasp, para espanto do mercado, comprou sua rival várias vezes maior e mais cara que ela própria. Mas essa é uma outra história…

O DC-6 do filme tornou-se, pois, propriedade da Viação Aérea de São Paulo, com quem permaneceu até mais ou menos 1968, quando então a Vasp passou a adquirir apenas jatos da Boing. O avião, aliás, tinha uma placa de metal logo à entrada da cabine: “Este avião serviu como palco do filme Um fio de esperança, protagonizado por John Wayne”. Em 1968, já funcionário da Vasp, meu pai tentou vender o avião para uma empresa de Buenos Aires, que preferiu adquirir um dos Vickers Viscount da empresa paulista. Hoje, se o avião ainda existir, deve pertencer a alguma empresa do Peru, Bolívia ou Colômbia - meu pai não se lembra quem ao certo o comprou. Em meio à desordem dos nossos aeroportos, isto talvez signifique que não somente a Vasp, mas também todo um leque de companhias de aviação nacionais, realmente perdeu seu último fio de esperança…



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