Wednesday, July 18, 2007

Nem o aeroporto…

Nos últimos anos, tenho ouvido esporadicamente que a única saída para o Brasil é mesmo o aeroporto. Bem, graças aos últimos vinte anos de governos desgovernados, nem isso é verdade. (Vide esse último ano de caos nos aeroportos e os dois acidentes envolvendo a Gol e, agora, a Tam.) Vós, que aqui estiverdes, abandonai todas as esperanças e enfrentai a realidade: viveis em um país de terceiro mundo caindo para o quarto. Aliás, o Brasil já está no quarto, de quatro na cama, sendo sodomizado pela corrupção moral de seus governantes, de sua elite intelectual, política e financeira e até mesmo pela corrupção de boa parte de seu próprio povo.

(Quando me lembro que havia um grupo desviando dinheiro da bilheteria do Cristo Redentor, penso: meu Pai, agora fodeu de vez.)

Não há outra solução fora da máxima de Krishnamurti: “a única revolução fundamental é revolucionar-se”. (Não é revolução no sentido político, por favor.) De fato, faz-se necessário um recrudescimento moral e uma auto-observação implacável: “quais serão as conseqüências de meus atos?” Em seguida, de modo complementar, talvez fosse preciso puxar a orelha de amigos e parentes que por ventura estejam praticando suas pequenas ações imorais e anti-éticas, pouco importando que se enfureçam consigo. Isso talvez levasse o país a uma reação moral em cadeia. Sim, apenas talvez. Porque nunca se sabe qual o tamanho da trave que cada um traz em seus próprios olhos. Recentemente me ocorreu um desses casos.

Enviei meu curta-metragem de ficção - Espelho - a um compositor amigo encarregado da trilha sonora. Descobri mais tarde que ele e um outro amigo fizeram uma sessão particular em Brasília (só podia ter sido em Brasília) e exibiram o copião do meu filme - inacabado, falto de alguns planos de corte, sem o áudio final, sem os efeitos visuais planejados, sem o ajuste de cor e luz, etc. - para uma platéia de colegas de profissão e conhecidos lá deles. Fiquei indignado: que tipo de ética tem o profissional que sai por aí exibindo sem permissão o trabalho inacabado de um diretor? E ainda havia um agravante: este segundo amigo era o técnico de som preterido do nosso filme, ou seja, havia ali uma curiosidade que lindava com a, digamos, “espionagem industrial”.

Depois de chamar a atenção do compositor, que teve a decência de pedir desculpas, escrevi a este outro dizendo que não gostei nem um pouquinho de sua atitude, que a achei “FODA”. Ao invés de se desculpar, escreveu-me um email cheio de injúrias atacando minha postura como profissional de cinema (!!) e a qualidade do meu filme, como se este já estivesse concluído e pronto para a crítica. E o pior: ao contrário de mim, que lhe escrevi em privado, reencaminhou sua resposta a várias pessoas, algumas delas participantes do meu filme, apenas para feri-las junto comigo e supostamente humilhá-las diante dos demais. (Mal sabe ele o quanto estamos satisfeitos com o resultado.) Respondi dizendo que, a princípio, acreditei ser ele apenas alguém sem caráter - o autodomínio é a medida do caráter de uma pessoa -, mas que, no fundo, era ele realmente um mau caráter, já que, além de não conseguir dominar seus impulsos negativos, ainda era capaz de estimulá-los e amplificá-los, mesmo ao não ter razão diante de um fato notório. Enfim, sem ter qualquer argumento a seu favor, e sendo incapaz de assumir de forma madura o próprio erro, o cara preferiu intensificar sua postura maliciosa: seu próximo email foi uma ameça à minha integridade física!!!

Yuri, agora a coisa é para valer. Se me ver por ai, corra seu palhaço sem picadeiro. Pois a coisa vai pegar. [...] Então para eu te quebrar a cara com uma única porrada, não custa nada. Suma da minha frente, vc entendeu? suma!!!! Quando vc me acusa de mau caráter tenho motivos para tirar satisfações. E tenha certeza que farei isso quando te encontrar. E olha seu inrresponsável, não estou para bricadeiras. Pense no que dirá ao meu respeito pois terão sérias consequencias.

O que esperar de uma sociedade dentro da qual não se pode confiar em seus próprios amigos? Porra, é certo que não nos encontramos senão eventualmente na última década, mas o cara é meu amigo há quinze anos!! Quando você procura seu nome no Google, o primeiro texto que aparece é um que eu próprio escrevi a seu respeito anos atrás. (Está sem os créditos, mas eu o publiquei no caderno Pop do jornal O Popular, quando então vivia escrevendo sobre sonhos.) Mas ele prefere me ameaçar a assumir um erro. E por quê? Simplesmente porque perdeu completamente o senso moral e não acredita ter cometido um deslize ético, afinal, estava apenas assistindo com terceiros ao “filminho” de um amigo. Será que o filminho em questão não corresponde a uma “propriedade intelectual” que deva ser respeitada? Não estou falando de pirataria, estou falando da exibição indevida de um copião, de um filme inacabado, a outros profissionais de cinema que nem sequer conheço. Se os dois ainda o tivessem visto a sós sem exibi-lo a terceiros… mas não há sequer esse atenuante.

E qual afinal foi a trave que encontrei em meu próprio olho ao apontar o cisco desse meu amigo? Ora, uma coisa bem simples: quando sou bom, sou muito bom, mas quando sou mau sou melhor ainda. Sacou? Não preciso dar maiores explicações. Basta dizer que tentei por duas vezes fazer uma tatuagem, a saber, a de um escorpião a segurar, com as tenazes, um livro aberto e a escrever nele com o ferrão uma frase de, salvo engano, Paracelso: “a diferença entre o veneno e o remédio é a dose”. Por sorte ou azar, nas duas ocasiões em que fui fazer essa tatuagem, com tatuadores diferentes em cidades diferentes, encontrei-os com o braço quebrado - ainda não tenho tatuagem… Enfim, talvez eu até saiba aplicar o corretivo em privado, mas ainda não sei dosar bem a quantidade de veneno. O cara certamente saiu intoxicado de nossa troca frenética de emails e por isso resolveu partir para a ignorância. Ele insistia em desviar a discussão para questões secundárias e pessoais, e eu então o trazia de volta ao cerne - a falta de ética. No entanto, por ele se recusar a ouvir, também eu acabava rebatendo seus ataques com outros de maior intensidade apenas para demonstrar que, se ele tinha um 44, eu tinha uma bomba atômica e que, por isso, seria melhor para ele deixar as fugas infantis de lado e enfrentar a situação como um adulto. Tenho um ótimo faro para localizar feridas e, se provocado, ainda sinto prazer em meter ali meu dedo. Um maldito prazer indescritível… É como se eu me sentisse uma espécie de Exterminador de missivistas mal-educados e presunçosos em missão sagrada, uma coisa doentia. Preciso parar com o exagero, ficar apenas no remédio, sem essa de mostrar que, na esgrima com palavras, sou fueda. Isto se chama soberba e é uma questão de caráter dominá-la. Do contrário, a sensação que fica depois é a de ter espancado uma menininha…

Em suma, parafraseando o Riobaldo, viver é muito perigoso. Principalmente num país como o nosso, no qual as pessoas se tornam cada dia mais mesquinhas, egoístas e irresponsáveis. “Quem é fiel nas coisas mínimas, é fiel também no muito, e quem é iníquo no pouco é iníquo também no muito” (Lc 16,9´10), já dizia o Mestre. “Vigiai”, também dizia, principalmente nosso próprio comportamento e nossas inclinações. E não vos esqueçais: não tenteis fugir pelo aeroporto, tentai consertar as coisas aqui mesmo. Ou ainda confiais mais em nossa aviação que em vós mesmos?

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