Saturday, October 28, 2006

O debate na Globo

paulo paiva, 7:37 am
Filed under: Política
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Estou sem tempo de escrever, mas já que eu não conseguiria ser tão claro e didático quanto o Reinaldo Azevedo, segue sua análise do debate.

Foi um vexame: a “Síndrome Motorista de Táxi” derrubou Lula

Comecemos pelo fim: este foi o confronto em que o tucano Geraldo Alckmin teve o melhor desempenho, e o petista Luiz Inácio Lula da Silva, o pior. Dos quatro debates havidos neste segundo turno, o pessedebista venceu três (Band, Record e Globo), e Lula, apenas um (SBT). Evidência: Alckmin venceu quando jogou no ataque. No SBT, testou aquela linha tecnocrático-propositiva. Isso, com Lula, que é chegado a uma generalidade a um senso comum, é sempre um perigo. Mas o dia e o formato do embate da Globo foram particularmente perversos para o petista.

Síndrome Motorista de Táxi
O leitor vai entender direitinho o que é isso. A maioria dos motoristas, cansados de conduzir os passageiros pra lá e pra cá o dia inteiro, ficam tendo idéias sobre como solucionar os problemas da humanidade: do buraco de rua à crise em Bagdá, eles sempre têm uma resposta. O Casseta & Planeta até aproveitou esse furor propositivo da categoria num quadro de humor.

Reparem que, na maioria das vezes, as coisas que dizem são irrespondíveis. Não que estejam certas. Ocorre que vêm formuladas de uma maneira, digamos, impenetrável. Olham para você e mandam ver: “Esse governo dá muito mole pra bandido, não dá?”. É claro que concordamos com ele. Mas vai saber o que ele quer dizer com isso… Pena de morte? Linchamento? Regime de Segurança Máxima? Ou então: “Vou falar pro senhor: política é uma merda. Se eu não ficar aqui 15 horas dirigindo, não ponho comida em casa”. De novo, ele tem razão. Mas o que será que ele quer? Ditadura? Revolução? Só reclamar da vida? É por isso que quase sempre nos limitamos a ouvir e a anuir com o que é dito. Entrar em detalhes pareceria difícil ou pernóstico. Ou imaginem: “Sabe o que é? Na democracia, a crise da representação…” Esqueça. Ele não quer saber o que você pensa. Quer dizer o que ele pensa.

O candidato que se diz popular, “do povo”, que conhece a linguagem da ruas, deu-se mal justamente com essas obviedades que se falam na rua. A Cristiane Santana, do Rio, por exemplo, afirmou conhecer um monte de gente desempregada. Um irmão seu está sem trabalho há um ano. Eis aí: um jornalista jamais faria uma pergunta como essa. Mesmo um candidato não a formalaria com tal crueza. De que valem os 7,5 milhões de empregos que Lula diz ter criado? O irmão da Cristiane o desmente. Aí, o Dêivison fala da violência. Muitos amigos já morreram. Os problemas ganham dimensão concreta.

Realidade atrapalha. E sem ficha
A realidade tomada em sua particularidade é sempre pior para um candidato da situação. Por uma razão simples: problemas sempre existirão. Se aqueles que estão ali são indecisos, sinal de que estão, quando menos, em dúvida na avaliação das respostas até agora apresentadas pelo governo. Em tese, Lula nadaria de braçada porque saberia falar aquela linguagem. Mas esqueceu. Ele se tornou uma espécie de idiota da macroeconomia, opondo sempre números gigantescos a questões muito particulares.

Pior: como os candidatos, a exemplo dos debates que acontecem nos EUA, são obrigados a ficar transitando no palco, gesticulando, falando, o petista não pôde consultar as suas fichas. Restou-lhe o recurso de acusar todo mundo por tudo. Chegou, como costuma acontecer, às caravelas de Cabral. Também tentou ser irônico e desqualificar as respostas de Alckmin. Caiu na grosseria pura e simples. Chamou o Programa Bolsa-Cidadão do governo de São Paulo de “cheque sei lá das quantas”.

Ultrapassagem
O tucano, ao contrário, soube lidar melhor com as minudências levadas pelos indecisos porque tem grande facilidade de memorizar números. Ao contrário de Lula, gosta de detalhes. Conseguia transformar os problemas privados em questões de administração pública. E fez pelo menos três grandes ultrapassagens (fosse uma corrida): quando exigiu respeito ao programa Bolsa-Cidadão; quando, aludindo à indagação de Lula sobre “de onde iria tirar o dinheiro” para seus programas, provocou: “Pensei que ele fosse dizer de onde saiu o dinheiro do dossiê”. E quando afirmou que os líderes do PCC estão na cadeia, mas os da quadrilha que operavam no governo estão soltos.

Lula pode ter sido prejudicado também pelo salto alto. Por mais que ele mesmo tenha dito ser preciso evitá-lo, mal conseguia disfarçar a irritação. Ao ir para o debate com 20 ou mais pontos de vantagem nas pesquisas — segundo os institutos ao mneos —, transpirava impaciência. Alckmin também jogou bem melhor sem a bola, quando sabia que, mesmo sendo hora da resposta do outro, estava enquadrado pela câmera: alternava sinais de negativo com a cabeça com um rosto tranqüilo, um sorriso quase sempre amistoso, raramente um tanto cínico. Lula, ao contrário, fechava a cara, olhando por baixo, como quem está sendo desafiado e se prepara para dar um pito.

A eleição é amanhã. Em que esse debate pode alterar o resultado? Talvez leve para Alckmin uns pontos a mais, evitando que Lula fique na casa dos 60% dos válidos. Mas quem vai saber. Eu já disse o que penso sobre a avaliação dos debates. Se você fizer agora uma pesquisa, o resultado óbvio será o seguinte: Lula ganhou. Afinal, ele está na frente. As coisas se confundem. Mas não ganhou. Levou uma sova feia. Estando certos os institutos, no entanto, é claro que não dá pra reverter o resultado.

Mas é fato que quem viu o debate, e isso inclui os eleitores convictos de Lula, não teve como não constatar que o tucano tem mais preparo. Em 2002, o Brasil escolheu quem tonha menos. E, agora, tudo indica, fará o mesmo. Lula, quem diria?, levou o maior tropeção nos debates justamente quando o tal “povo” entrou na conta.

Pois é. Diante da realidade do povo, as pirotecnias do Lula perderam o vigor. Muito interessante esse formato de debate na Globo! Por fim, lutamos um bom combate.

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6 Comments

  1. Jacqueline escreveu,

    Ontem Alckimin se superou, espero que o povo brasileiro vote consciente e que tenhamos um governo melhor e possamos respirar em paz.
    FORA LULA! Traidor do povo brasileiro , dos princípios e da ética.

    Comentário de 28-10-2006 @ 11:58 am

  2. Pedro Henrique escreveu,

    Este blog esta cada vez mais unilateral. Não que eu defenda o esquerdismo brasileiro, mas, onde estão as criticas ao PSDB - que não deixa de ser, va lá, um partido de “esquerda”.
    Yuri, um blog como o seu, eu o vejo, ou, eu o via, como formador de opnião. Aquele que se parece com uma aula de filosofia: O professor lança diversas opniões para os aulunos pensarem, debaterem, etc., e, em nenhum momento o estara de um lado só.
    Considere.
    Abraço.

    Comentário de 28-10-2006 @ 12:16 pm

  3. Vin escreveu,

    Pedro Henrique,

    Que nomezinho chulo!, vá catar coquinho!

    Criticar Alckmin neste momento seria o mesmo que dar um cheque em branco para a gangue petista pagar a conta da padaria. Se é que me entende.

    Alckmin, pode ser um esquerdista sim, mas bandido não é.

    Acorda, mané!

    Comentário de 28-10-2006 @ 12:25 pm

  4. yuri vieira escreveu,

    Bom, as críticas ao PSDB são as mesmas que se fazem a qualquer partido social-democrata, a qualquer “direita-da-esquerda”: é amante das soluções estatais para todos os problemas humanos; pretende governar o Estado e utilizar seus recursos como se fosse ele mesmo o criador deles e não um tomador faminto de tributos; mergulha o país cada vez numa maior dívida pública, pois sempre gastará mais do que arrecada e, daí, sempre aumentará mais os impostos (e por isso é provável que o papo do Alckmin de baixar os impostos não passe de pura mentira); dominado pelo sentimento de culpa marxista, sempre verá o capitalismo como vilão e, por isso, sempre se utilizará de mil entraves para limitar a iniciativa privada, bloqueando então o avanço da prosperidade (o capitalismo é o único instrumento capaz de levar prosperidade real - e não esmolas - aos pobres); e assim por diante. No fundo, são todos farinha do mesmo saco, já que o PT comete os mesmos equívocos. A diferença é que o cunho totalitário do PT é muito conspícuo, só um cego não vê. E, para realizar suas utopias, transferiu a estrutura de um sindicato para dentro do Estado e um sindicato não é outra coisa senão uma mafia oficializada. Só espero que o Alckmin seja eleito para que não vejamos um criminoso cúmplice das FARC, do MIR, de Fidel, de Chávez novamente no poder. É isso o que o Lula - com todas as provas do Foro de São Paulo - de fato é.

    Quanto ao debate, não sei se o Lula, para o povo mediano (medíocre), realmente perdeu o debate. O filho da mãe usou um procedimento que cria uma falsa sensação de domínio, de superação do outro: a metalinguagem. A todo momento ele comentava como é, o que é, o que significa um debate - segundo os conceitos babacas dele, claro - mas isso dava a impressão de que, quando ele estava em maus lençóis, é porque o formato do dito cujo é que o estava prejudicando. É como se ele, de vez em quando, estivesse desmontando aquela farsa da qual o Alckmin não se desvencilhou em momento algum. E, cá entre nós, um debate que não cita as conexões do Lula com o crime organizado latino-americano - via Foro de São Paulo - é uma farsa mesmo. Ainda tenho esperança de vê-lo ferrado. Mas não sei se os indecisos panacas viram o mesmo que o Reinaldo viu. E olha que ele viu bem. As pessoas se deixam sempre levar mais por esse carisma burro do que por uma demostração de inteligência resoluta.
    []’s

    Comentário de 28-10-2006 @ 4:37 pm

  5. Alex seu amigo escreveu,

    “Haverá um dia em que todos voltaremos a ser felizes… Será o dia em que “Rosinhas” voltarão a ser apenas flores; “Garotinhos” apenas crianças; “Genuínos” serão coisas verdadeiras; “Serra” será apenas um acidente geográfico ou uma ferramenta; “Genro” apenas o marido da filha; “Lula” apenas um molusco marinho; e, “Severino”, apenas o porteiro do prédio…”

    Comentário de 28-10-2006 @ 4:56 pm

  6. Pedro Henrique escreveu,

    (Chulo é teu carácter. Fugiste do diálogo digno de um ser racional. Posto isso, apenas uma única coisa: Deprimente.)

    Obrigado pelo restante, Yuri.

    Comentário de 30-10-2006 @ 4:19 pm

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